sábado, 28 de outubro de 2017

Rotinas



Levantar-se cedo, caminhar, uma xícara de café ou chá e comer bem pouco é a interessante convergência na vida de vários gênios do mundo das artes. Não é o caso de se fiar nos hábitos - sobre pedras o arado é inútil -, mas, se houver comichão, não custa imitar e, quem sabe, liberar o algo engarrafado.  Estou me divertindo com Daily Rituals, um livro que narra elegantemente a rotina de alguns vultos: escritores, diretores de cinema, atores etc. Chama atenção a insuspeita rígida rotina que personalidades extravagantes estabeleceram para si, não obstante mantivessem vivo o charme da prodigalidade.

Quem diria que – “Durante sua vida adulta saia bem cedo, às 5:30 ou 6:00, a fim de caminhar com a primeira luz da manhã. ”– se tratasse de Ernest Hemingway. A rotina do escritor americano ou indica uma imunidade aos efeitos da ressaca ou reduz em centenas de mililitros as doses etílicas que lhes atribuíram.

A escritora Simone de Beauvoir se sentia satisfeita com uma xícara de chá na primeira hora da manhã. Lia na cama, depois se aprontava para ocupar a pequena mesa de trabalho do seu apartamento parisiense, onde permanecia até a uma da tarde, quando invariavelmente se encontrava com Sartre para almoçarem frugalmente.

O cineasta Frederico Fellini se levantava às 6 da manhã e se dispunha a caminhar. Durante anos se dedicou a conseguir fazer o próprio café, sem jamais atingir o padrão de excelência por ele estabelecido. Às 7 em ponto começava a trabalhar.

Outro cineasta, Ingmar Bergman, estabeleceu uma rotina austera que fez da sua alimentação apenas meio de sobrevivência. Todos os dias se levantava às 8 e comia uma pequena porção de geleia de morango com um cereal e leite desnatado. Depois de trabalhar o dia todo, por volta das 4 da tarde, começava a caminhar e só retornava à noite. Nada de drogas ou álcool. Bergman dizia que uma pequena taça de vinho era capaz de fazê-lo incrivelmente feliz.

Com o alvorecer, o músico Beethoven se levantava. Antes de começar a trabalhar, “desperdiçava” um pequeno tempo na meticulosa tarefa de preparar um café perfeito, que lhe seria suficiente para ir adiante com suas composições até às 2 ou 3 da tarde, quando então parava para almoçar. Depois empreendia uma longa e vigorosa caminhada. No bolso, uma composição inacabada e lápis - ele sabia que o exercício ao ar livre o encheria de vigor e inspiração.

Às 7 horas da manhã, Sigmund Freud estava tomando seu café. À 1 da tarde, pontualmente, seu almoço era servido. Dizia-se um “não gourmet”, não apreciava comida ou vinhos, preferia algo que lhe desse o sustento necessário para desempenhar a atividade para qual viveu: trabalhar. No entanto, tirava da comida uma quieta concentração. Após o jantar, Freud caminhava por Viena, às vezes só, às vezes acompanhado pela mulher e filhos, que a custo o acompanhavam - na família era o homem da marcha terrível. 

Freud nasceu em 1856, Simone em 1908, Beethoven em 1770. Visitantes de mundos diversos que partilharam opiniões parecidas sobre trabalho e inspiração. Chegaram incontestáveis até nós. Sabe-se que barriga cheia e ociosidade só servem mesmo para nos deixar parados.