sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Teoria dos humores


Fui convidada para ver Dragões no final da semana passada, ainda bem, não os vi. Eles foram só o pretexto para o desenvolvimento de um espetáculo encantador apresentado pela companhia vocal Enrico Nery. O teatro lírico de Nery situou-se na Idade Média e buscou, na antiguidade, seu argumento – uma relíquia classificatória do temperamento humano. Segundo Hipócrates (médico na antiguidade), o equilíbrio e saúde do homem dependiam da harmonização dos humores: sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico. Naquele tempo, buscava-se enquadrar as pessoas em algum desses tipos e, com isso, saber do que ela precisava para viver bem. Por exemplo, tirando um pouco de tristeza e colocando um tantinho de vivacidade. É curioso o fato de a teoria dos humores não desaparecer. A medicina moderna praticamente a ridiculariza por sua ingenuidade quase tocante. Contudo, a força do alicerce da teoria tem sustentado grandes reformas.  
Se bem entendi a montagem do belíssimo Dragões, Enrico nos fez pelo menos dois convites: conhecer-se e reconhecer-se como parte integrante do Universo, não necessariamente nessa ordem. Ele diz: “Toda história de um homem descreve a poeira pelo vento na estrada. Tudo se encerra na terra, assim que o sopro para de suas narinas, na morte. ” Hipócrates, 400 anos antes de Cristo, via-nos como integralidade, a saúde mental e física do homem, derivados do meio ambiente, da dietética e da personalidade, uma visão holística, quem sabe.       

Na “ópera” de Nery e para Hipócrates, os elementos da natureza - terra, ar, fogo e água – relacionam-se pari e passu com os temperamentos descritos, um dragão para cada elemento, os ovos dos dragões encerrando o poder que emana de cada uma dessas personalidades.   

Saindo do palco e entrando na cozinha, a teoria dos humores direcionou a dietética da época. Hipócrates, e mais tarde Galeno, acreditavam que alimentos teriam capacidade terapêutica: “Alimentos são medicamentos” foi dito há dois milênios. E muito embora o menu da época fosse equivocado em muitos pontos, a ideia da intervenção dos nutrientes para nosso bem-estar segue cada dia mais forte. Portanto, um banquete compensador poderia ter sido oferecido às donzelas de Enrico Nery, sofredoras, solitárias e prisioneiras da máxima letargia, cólera, depressão ou leviandade.

Sem comida e com tanta excitação encerramos a noite de domingo sanguíneos. Tranquilos pela paz que a Arte e a Natureza são capazes de dar e com a cólera aplacada pela exibição de tanta beleza.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Vento Sur



Uma insólita estrada reta de pista simples, imersa num azul metálico empoeirado nos levou até El Chaltén. A cidade em tudo se parece com uma ilha, melhor dizendo uma península, mas é um vale rodeado por montanhas de águas congeladas. Na primavera testemunhamos ventos quase 100km/h. Possui cerca de 3 mil habitantes, a maioria de jovens alegres dando a impressão de serem mochileiros que, em férias das aventuras, trabalham. No início do inverno, as coisas se acalmam, a algazarra dos jovens migra. É possível ver uma cidade inteira se deslocando no sentido inverso ao da nossa chegada. Tudo fecha. O ir e vir será memória soterrada, junto com a estrada simples e azul, pelo gelo que a tudo cala, exceto o vento. A cada novo inverno renova-se a decisão entre o ir e o ficar. A garçonete do Destino Sur nos disse: são meses de escuro e vento incessante. Impossível não se lembrar do filme O Iluminado.

Estávamos nesse restaurante pela segunda vez porque meu marido queria comer a Provoleta. Uma mania local, vi esse nome em outros estabelecimentos. Nada demais, mas devo admitir que não lhe faltam sabores. Uma caçarola de ferro com nichos, como se fosse projetada para acomodar várias bolas de golfe, mas não, acomoda pedaços de provolone que serão fundidos com algum acompanhamento: tomate, damasco, azeitona, pimentão, abobrinha, berinjela.

A Provoleta é uma entrada típica da Argentina, perfeita para se comer com pão italiano, normalmente é feita só com provolone, numa vasilha única, como se fosse fondue. Em alguns casos, leva queijo parmesão e os temperos parecem ser sempre orégano e azeite. 

A vantagem da individualização é a variação das combinações, indo da azeitona ao damasco, mas nesse caso é preciso a vasilha justa.

Em casa é possível fazer esse petisco de forma mais leve e mais gostosa. Forra-se uma assadeira pequena com mini tomates, tantos quantos forem precisos, espalha-se pedaços de provolone com a casca, finalizando com muito orégano fresco e seco, tomando cuidado para que o queijo não derreta a ponto de se liquefazer.        

O Brasil está sendo bem tratado por ali: a voz que acompanhou a Provoleta foi do Caetano Veloso, cantando Astor Piazzola: Vuelvo ao Sur. Aninho-me nessa belíssima canção, a compreendo através da afetuosidade da gente do Sul da Argentina. Ponho a mão na vidraça e sinto o frio da tardia alvorada.

O vento acelera as nuvens, não há tempo para se perceber formas, poderiam ser elefantes, cavalos, cachorros, mas são apenas fiapos algodoados das nuvens do sul.