quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Cozinha lá, sala cá



Assisti a um bom filme dia desses: Um sonho de amor (sei, o título não ajuda). Algumas cenas despretensiosas reverberaram, justo aquelas que se passam na cozinha da casa de uma riquíssima família italiana. Aristocráticos, mantêm funcionários em número suficiente para mimar individualmente cada integrante da família. Mas nos dias de banquete é que os bastidores brilham. Cada um dos pratos é montando pelo chef, funcionários de luvas carregam dois a dois todos eles até a sala de jantar. Mas o que me chamou a atenção foi a distância da cozinha com a sala: corredores e três lances de escada separam a refeição do comensal. Pratos imensos, pouca comida, clima milanês, é comida fria na certa.

Manter a cozinha distante da sala onde os “patrões” se sentam para comer tem uma leitura lógica e hierárquica, misturar os dois cômodos recenderia a sedição. O intuito é manter longe da realeza ou da aristocracia os cheiros, o barulho e o risco de incêndio. 

Assim é a cozinha Real do Palácio de Madrid. Matéria exclusiva trouxe a repórter Luiza Fecarotta, que foi convidada para visitar essa que é a mais bem conservada cozinha palaciana do século 19. Até os cardápios escritos a bico de pena estão por lá. E eles ajudam a contar a história da alimentação real. Nenhuma novidade, os reis espanhóis e seus convidados comeram faisão, trufa, foie gras, peito de pato, filé de capão, costeleta de cordeiro, creme de aspargos.

A magnitude não se compara a nada que conhecemos, um conjunto de vários cômodos imensos tomam uma área maior que muita casa grande. Para atender à mesa palaciana tinha-se: a sala da confeitaria, a sala da lenha e combustíveis, a drogaria, a sala do serviço de mesa, a de infusões e refrescos, molhos e condimentos, a despensa, a sala de carnes, a de verduras e a cava. Ainda uma cozinha específica somente para atender ao rei. Havia ainda uma terceira cozinha, exclusiva para o reaproveitamento das sobras reais, destinadas aos serviçais, e a ante-cozinha, ou sala de preparo, onde se realizavam os serviços mais grosseiros, como o destrinchar de carnes e a lavagem de hortaliças. A saber, a drogaria trabalhava principalmente com especiarias. A fama da cozinha? Muito boa, mas os comentários é que a comida chegava sempre fria à mesa, devido a distância entre as salas de serviço e a sala de refeições.

Tempos simpáticos são os das cozinhas atuais. Os balcões que as separam das salas, às vezes nem isso, mergulham a casa inteira nos inebriantes cheiros. O preparo da sopa,  o assar do pão, o refogado são interpretados como zona de conforto. O risco de incêndio ou explosão foi solucionado de forma simples: para fora, o botijão de gás, para dentro as comidas e a gente.       

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

O último preparo do ano


O último preparo do ano: um molho pesto. Não havia nozes, mas tinha amêndoas - e por que não um teste bobo assim para terminar o ano em segurança? O último cheiro-verde do ano a ser picado: a salsa, a cebolinha, tão delicadas se recusam ao corte cego, é preciso fazer o último fio na faca preta. A pedra cinza molhada se presta a última admoestação do ano, e limpo o pó que os deslizes entre o ferro e a pedra produzem. Dou a última laçada no avental, faço-a frouxa com a tranquilidade de quem se sagrou campeão na rodada anterior, sinto-me como a cumprir tabela. Meu último jantar do ano na mesa do meu trabalho, antes de servir me sirvo de cabotiá, feijão, alface e muita cebolinha fresca.

Tudo ocorre como previsto, uma noite tranquila. Vou mais cedo para casa com as últimas sujeiras do último dia de trabalho do ano. São toalhas com respingos dos últimos vinhos servidos, guardanapos com as marcas dos vários batons que pintaram as últimas bocas que se alimentaram esse ano no Azul. Durmo cedo.

Acordo cedo, às 7 horas da manhã já estou na estrada, às 17h. chego ao meu destino e às 19h. cobro por uma mesa por uma reserva que eu fiz. Acomodo-me e um cardápio de delícias me é posto à frente, é só pedir. Um vinho frisante me é oferecido dentro de uma taça bem polida, percebo a toalha, o guardanapo. Vigio as gotas que escorrem da garrafa e da taça. Identifico as primeiras manchas na toalha: água, a gordura de uns grãos escapados. Um descuido e meu guardanapo tem uma pequena mancha de discreto batom.

O restaurante está cheio, vejo famílias e casais cultuarem, numa débil privacidade, seus pequenos palcos onde se apresentam as ágapes escolhidas particularmente para serem devoradas. Sinto a letargia da satisfação, contemplo num ritmo baixo o charmoso desalinho do restaurante, todas as mesas sofreram avarias idênticas a minha. Daí a pouco o público começa a debandar, a equipe tem outra feição, posso sentir o movimento dos calcanhares em retirada, a substituição do delicado movimento de subida ao palco para o frenesi do desarme.

Retiro o guardanapo do colo e o deposito na mesa e com isso a encerro. Da porta vejo o garçom limpar a sujeira do meu último jantar de restaurante do ano e daqui a pouco alguém fará por mim o que há 24 horas eu fizera por alguém.
Escuto o mar bater nas pedras e me lembro que estou longe de casa, no entanto, a idiossincrasia ao restaurante é também meu lar.

Um bom ano a todos.