Numa mesa social, admirava-me a
exuberância da explanação. O poder de decolar e aterrissar os ouvintes, fazia-me
prazerosamente de vela ao sabor das palavras assopradas por quem detém o poder
do encantamento. Mas isso mudou. Não se trata dizer que aprecio as pedradas da
ignorância que, mal saídas da boca, já atingem o chão, não; é só que, o
silêncio de quem se utiliza do direito de permanecer calado, tem me
interessado. Por isso, estava há meses tentando comprar o livro da silenciosa e
grandiosa chef de cozinha Mari Hirata. Além de saber do potencial técnico do
livro, são inspiradores a confiança e delicadeza que sua imagem transmite. Algo
relacionado a portas que correm, não batem, sapatos de pano, vértebras que
vergam em agradecimento, flores de cerejeiras ao vento.
Hirata é formada pela ECA, a Escola
de Comunicação e Arte da USP, mas foi num ano sabático em Paris, após a
formatura, que a sua biografia começou a se delinear. Começou a frequentar
cursos livres de pâtisserie, vinhos e cozinha francesa. Ao final do curso, sua
professora a convidou para trabalhar no Le
Palais de Dames, uma doceria composta só por mulheres. Um ano depois era a chef
pâtisserie do Caeser Park, em São Paulo, e lá experimentou o fracasso - seus
doces, pouco doces, desagradavam aos apreciadores de compotas e brigadeiros de
arranhar a garganta.
Desorientada, resolveu tentar o Japão,
onde é contratada como estagiária numa doçaria tradicional. Trabalhava das 7h.
às 19h. em troca de comida e moradia. Pela integração social, introjetou a
implacável etiqueta do país oriental na década de 80: mulher não fala alto, não
gargalha, não cruza as pernas... Seu
talento com os doces a levou, enfim, ao mais alto posto: a confeitaria imperial
do Japão, a Toraya. Mari integrou a equipe, esbanjou seu talento, se apaixonou
e casou com outro funcionário da casa. Por isso também foi obrigada a deixar o
emprego, pois, como esposa japonesa, foi alçada à condição de administradora da
casa, impossível conciliar. Mas, novamente, as adversidades desabrocharam seus
encantos e, hoje, Mari é referência da cozinha brasileira no Japão e da
japonesa no Brasil.
Mantém uma escola que é reconhecida
pela qualidade do que ensina, mas é também ponte diplomática entre os dois
países. Trinta anos se passaram desde sua chegada ao Japão. Hoje, é respeitada e
acolhida como um japonês. O motivo? Ela não titubeia: as seguidas demonstrações
de persistência, com a vida, o trabalho, a família.
Seu primeiro livro é ótimo, mas esse,
Mari Hirata sensei, é de cabeceira, é
de cozinha, não só pelas receitas, mas pela técnica revelada em cada uma delas.
É preciso um pouco de conhecimento
para entender o valor dos amálgamas propostos. Talvez nada disso: uma boa boca e
mãos dispostas serão suficientes para uma bela degustação.
