O tempo nublou e a gente logo pensa
naquela sopinha, num vinhozinho, num bolinho ou qualquer coisa assim, no
diminutivo, que nos traga algum conforto. Faz-se aquele calor brutal e são as
folhas tenras, o limão, o abacaxi feito suco com hortelã, o talho de melancia.
É intuitivo, o corpo pede, a boca procura. O comer está intimamente ligado ao
tempo e, claro, respeitadas as diferenças culturais, imagino que todo mundo
tenha o prato perfeito para “aquele” dia.
Mas os japoneses foram muito além do
ter ingredientes ou preparações que combinem com as estações do ano. Eles
desenvolveram uma cozinha que, no esplendor de sua arte, combina ingredientes
sazonais com uma apresentação que delatará ao comensal a sua estação. O esmero
estético é notável e tem de ser porque os itens deverão estar de tal modo
arranjados para que a gente bata o olho e diga: isso é solar, ou isso é ventania,
por exemplo. É comum estar presente, nos pratos, flores ou plantas da estação.
A origem dessa culinária, cujo esmero
é buscado à exaustão, está ligada à cerimônia do chá e aos monges budistas. Não
que os monges se alimentem com requinte, mas devem se alimentar pouco, nunca
estarem de estômagos plenos, o que atrapalharia a meditação. Da cerimônia do
chá vem a etiqueta e a preocupação com a louçaria. Quem puder desfrutar de um
ritual assim se encantará com a quantidade e beleza das pecinhas que irão à
mesa. Josimar Melo vê no cerimonial do kaiseki
a origem do menu degustação. Possivelmente, até os franceses adequaram a comida
deles à praxe, inclusive o aspecto sazonal e sofisticado. Sim, porque não tem
jeito: se a estética atende ao capital, aqui será sua expressão.
Mas essa não é toda a verdade, nem
tudo é aristocracia. Nas estações de trem das províncias japonesas é comum a
venda de marmitas, lá, obentos. A coisa é tão séria que há até concurso para o
melhor obento ferroviário. E a exigência principal é que as marmitas sejam
feitas com produtos da época e nas cores que representem a estação de cada ano.
Dizem que, a loucura total, são pelos obentos primaveris, rosados e brancos. Devem
ser degustados a sombra de alguma cerejeira em flor, um refletindo o outro em
tonalidade e carícia. Claro, não chegam a ser um kaiseki, mas os preços variam de 10 a 100 dólares.
E o mais
importante, tanto no kaiseki como nas
marmitas, a preferência ainda é pelos ingredientes genuinamente japoneses.
