sexta-feira, 17 de março de 2017

Jejuns e temperança


Uma amiga, professora de ginástica, tem se mostrado preocupada porque numa mesma semana duas alunas dela desmaiaram durante a Zumba – uma aula de dança intensa que está na moda. O motivo? O jejum. Quem nos escutou bem poderia ter associado a atitude das moças com o período da quaresma. Estariam elas aproveitado a privação do prazer da comida para uma suposta purificação da carne? Nada disso! Os antenados saberão se tratar de uma novidade do mundo fitness, a saber, o jejum intermitente, uma das novas armas para o emagrecimento rápido.

Santo Agostinho, muito antes disso sabia: “o que basta à saúde é insuficiente para o prazer” - essa boa frase do santo nos leva direto ao centro do trocadilho bobo que diz que a gente deve comer para viver e não viver para comer. Para santo Agostinho, que se assumia pecador, manter-se fiel a uma alimentação justa, ou seja, aquela que lhe garantisse uma sobrevivência saudável e nada mais, era a garantia de afugentar o prazer e os demais problemas advindos da gula.

Ao que parece, a nova técnica de se ficar longos períodos sem consumir qualquer alimento tem dado resultados práticos, embora bata de frente com a famosa orientação nutricional de se comer de três em três horas que, aliás, aborrece muita gente. Sobretudo aqueles que têm o hábito de só tomar café, almoçar e jantar.  O jejum intermitente também veste como luva aqueles que não gostam de tomar café da manhã. São muitas as pessoas que não sentem fome pela manhã e partem direto para o almoço. Foi o caso das meninas que desmaiaram, a dobradinha: esforço físico intenso e nada de café da manhã pode nos levar a ver “estrelinhas”.

A ciência afirma ver benefícios na saúde de quem faz jejum prolongado, o que se comprovou através da observação na saúde do corpo dos fiéis que se submeteram aos longos jejuns religiosos: a quaresma dos católicos, o Ramadã dos mulçumanos. Sinceramente, acho precipitada essa conclusão. Se não for levado em conta o componente religioso, os pesos e medidas materialistas serão insuficientes nesse caso. Porque a ciência também já se pronunciou sobre os efeitos benéficos da prece e da fé no corpo físico do Homem.

Então, não seria a temperança uma virtude a ser cultivada? Uma boa alimentação, diversificada, prazerosa, que garanta saúde ao corpo quer esteja em repouso, quer esteja em movimento, não seria uma coisa boa? Uma outra amiga minha vê o jejum religioso atualmente como algo metafórico: jejum ao ódio, ao preconceito, à intolerância - apreciei esse entendimento secular.

Mas o exercício da fé, desmesurado, pode ser uma deliciosa janela aberta para o sol, traduzida na humilde atitude de se repousar os talheres.

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