Lembranças
Da última vez que eu vira uma cuia
fumegante de mexilhões em cima de uma mesa, havia embaixo dela, da mesa, um
homem. Por cima: a cuia, cujo vapor ainda desenhava no ar, denunciava que ali
ninguém comera nada ainda e que, mal chegaram os pedidos, o homem colapsou.
Instantes depois, o serviço de emergência francês prestava os primeiros
socorros. Mas, à parte os mexilhões enormes dum laranja luzidio protegidos pela
casca preta ônix e o homem estirado no chão, vitimado sabe-se lá pelo que, o
que me chamou a atenção foi o barulho, se alguém recortasse aquele pequeno
quadro “encenado” nada estaria fora do lugar. O mesmo som aconchegante, vozes,
taças, talheres, sineta da cozinha e ao fundo alguma Ella, Edith ou Nina
acarpetava com a voz chiada todo o ambiente. O francês tem horror a qualquer
intromissão desnecessária na vida alheia, então, para que xeretar uma situação
que deve ser controlada por quem de direito?
Semana passada eu e minha filha fomos
a um bistrô em São Paulo e dou de cara com a tabuleta anunciando que o prato do
dia era Moules e frites (jamais me
esquecerei daquela cena) muitos clientes denunciavam que estavam ali justamente
pelos mexilhões, que são servidos apenas uma vez na semana. E, ainda bem,
ninguém acometido por nenhum drama.
É uma pena que a gente não valorize
os mexilhões que são uma opção barata de frutos do mar, além da personalidade
do sabor, superior ao da lula por exemplo, que é bem sem graça. Para os
franceses a coisa é séria, e há pelo menos uma receita clássica com eles vinda
de cada região francesa. Acho que talvez a facilitação do processo tenha
acabado com toda a graça do paladar. Uma coisa são os nossos mexilhões
desabitados, pelados, congelados, acomodados lado a lado nas bandejas de
isopor. Outra coisa são eles dentro de suas casas fechadas, as cascas com as cracas
do mar, pedaços de algas saindo para fora das conchas e um punhado de areia que
demanda algum trabalho. Só que tudo isso fervido junto resulta em algo
delicioso, enquanto nós nos acostumamos a afugentar uma espécie de massinha alaranjada.
Juntei-me ao coro e pedi o meu
mexilhão, que é feito a moda marinière,
só que mais sofisticado, leva cebolas, vinho branco e manteiga e, acho, creme de
leite fresco. O resultado é uma sopa de sabor refinado e irresistível, os
mexilhões com textura firme e fresca, não são nem lembrança daquelas coisas
moles com sabor meio passado a que estamos acostumados, e as batatas fritas, a
gente varia, come umas mergulhadas no molho e outras crocantes.
Acho que temos o poder de escolher as
lembranças que o cérebro vai guardar, por isso também escrevo, pois replico meu
sentimento e reforço minha memória, que guarda agora duas cuias fumegantes,
duas mesas, um corpo que cai e o rosto da bela moça que elegantemente me fazia
companhia enquanto eu saboreava um delicioso moules e frites.
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