Mandioca-brava
Sábado à tarde, logo após o almoço,
temos um cafezinho sagrado, acompanhado de chocolate amargo para fechar a
refeição e o papo. Sábado desses, fui brindada com uma história saborosa. Caio,
filho querido do meu marido, começou perguntando: “vocês conhecem mani, mani” e
eu completei: maniçoba? E ele: “sim, isso mesmo!” E começou a contar uma
história envolvendo a tal maniçoba que me fez lembrar do ator mirim Lucas Silva
e Silva, porque antes de começar o programa Mundo da Lua, na TV Cultura, diziam
assim: “Senta que lá vem história...”.
Era uma vez um rapaz, estudante universitário,
alegre com a vida, aproveitando as doces oportunidades de uma juventude sem
grandes compromissos, satisfeito com a sua solteirice. Então, alguém veio lhe
retirar a paz e transformar em imaturidade tudo o que até então lhe parecia
suficiente. A moça pareceu-lhe num primeiro momento meio índia, seguramente não
era daqui. Ele descobriu que viera do Norte do país, era paraense.
Paixão
arrebatadora, dessas que tem nas diferenças a pimenta que faz suar. Pareciam
mesmo destinados um para o outro, seria comum ouvirem e dizerem que o motivo
real que fizera a moça atravessar um pais inteiro, um Brasil de dimensões
continentais, foi apenas para que se encontrassem.
Decidiram, quase, se casar. Tal fato foi
comunicado aos pais da suposta noiva por ocasião da formatura da moça. As
festividades ocorreram como previsto, mas ao final, quando a pretensão do rapaz
foi dita ao futuro sogro, esse lhe disse: se quer se casar com minha filha, vá
buscá-la no Pará, vá ver quem ela realmente é. Pareceu-lhe um desafio bobo,
claro que iria, e o que iria mudar, Franca ou Belém, por acaso a água que se
bebe muda a essência das pessoas?!
A maniçoba é um prato típico
brasileiro - com certeza! - porque originário dos índios. Também conhecida como
feijoada paraense é orgulho daquele
povo e pode ser encontrada de botecos a restaurantes. Além disso, tem grande
valor espiritual porque é um dos pratos do Círio de Nazaré. É um cozido cujo
caldo é feito das folhas trituradas da mandioca depois fervida por pelo menos 5
dias. A esse caldo se acrescenta o que se quer, carnes diversas, embutidos ou
hortaliças. “É gostoso?”, o Caio nos perguntou. Difícil responder.
Pois então, nosso herói de hoje foi
de fato buscar sua Mani disposto a viver as lendas paraenses. Por lá se
instalou, marcou o noivado. O almoço, a cargo dos sogros, seria regado a pratos
típicos, claro. Nosso rapaz se esforçava com os novos hábitos alimentares: o
pato, que antes lhe parecia tão francês, agora era parte comum da exótica
culinária paraense. O dia chegou, estavam todos felizes, afinal motivos para
tristeza não tinham. O primeiro prato servido foi a maniçoba - e aquilo era
realmente um teste, não pelo sabor, que até então ele desconhecia, o problema
era a cor: aquilo lá era cor de comida? Algo entre o verde escuro e o marrom. Ele
pensou nas feijoadas cariocas e quase chorou, mas não tinha jeito: dessa vez
era experimentar ou magoar a mãe da noiva. Pegou um pratinho, colocou bem
pouquinho. Desejou ser invisível para escapar, quando atrás dele ouve a sogra
lhe dizendo: “menino, tá doido, isso é maniçoba. Encha cá esse prato!” E ele
comeu, comeu tudo.
Não foi má ideia esperar a chuva das
três horas passar para dar uma volta. O estômago cheio, a boca amarga eram os
sinais desagradáveis de um noivado que lhe parecia, naquele momento, algo como
um mito indígena, figurativo da vida real. Balançava a cabeça e pensava que sua
futura mulher não iria lhe fazer comer maniçoba todos os dias, aliás, não faria
nunca, era só dizer a ela o quanto ele odiara aquele prato. Elencava os argumentos,
que ia dizendo a si próprio, sem saber explicar o que a maniçoba despertara
nele. Incrédulo, se perguntava se um mal prato seria capaz de matar algo como o
amor?
Outros dias sobrevieram, mas a
certeza de que ele não poderia conviver com a maniçoba, se avolumava. Depois, sentiu
que não poderia conviver com quem comesse maniçoba.
Tampouco poderia amar quem
gostasse de maniçoba. Não ousou pedir à noiva que escolhesse entre ele e o
prato, jamais, seria tomado por louco. Apenas se lembrou do que o pai da moça
lhe dissera: fora preciso ir ao Pará para saber quem de fato era sua namorada.
Fundiu as duas, maniçoba e a noiva, e
viu a moça se afundar numa lama verdolenta. Por fim, só os seus cabelos nadavam
na lodosa cor da maniçoba. A custo, descobriu “de quem” gostava menos. Agora
tinha a garantia: era hora de retornar.
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