A cidade é pequena, destas que cabem
num raio de visão, está a 3 horas de voo de Buenos Aires no sentido sul,
portanto, na Patagônia, no parque dos glaciares, a 40 minutos dos pinguins. A
pequena El Calafate é um acidente ao redor do grande lago Argentino, uma das
maiores e mais importantes reservas de água doce do planeta, a cor de suas
águas varia a medida do humor do dia, indo do verde jade ao cinza, algo
calcário. Estão a embalar enormes blocos de gelo azul anil que se desprendem
dos glaciares – o que acontecia à velocidade do fruto maduro que se desprende
do pé, de dez anos para cá, foi contaminado pela nossa ansiedade - e os
icebergs agora se soltam rápidos, verdolentos, suicidas.
Embora cercados por água e gelo, os
moradores da cidade se identificam com uma planta frutífera que lhes dá o nome,
o calafate, cujo fruto em tudo se assemelha ao mirtilo, menos no sabor. É um
arbusto de médio porte, cheio de espinhos e que apresenta variações intensas de
cor e perfume, não importa se são apenas as flores, os frutos de vez ou maduros,
ele sempre cheira e atrai pelas cores vibrantes.
Jantamos no restaurante La Bahía, com
vista para o remanso circular empossado das águas do lago e de onde se avistam
patos selvagens e talvez flamingos. A garçonete, na noite anterior, já nos
falara da sobremesa combinada entre calafate e chocolate, que me parecera
ótima. Terminado o jantar, pedimos a sugestão: sorvete de chocolate, com
sorvete de calafate, caramelo e a frutinha embebida em licor. O sorvete de
chocolate, pela cor e formato das estrias, não deixava dúvidas quanto a
cremosidade, o de calafate também, mas não sei explicar seu sabor. Só sei que
para mim o gosto do calafate é de marrom-glacê, o doce francês de castanhas
cozidas, embora a cor nos induza a pensar em açaí. Apesar de venderem a ideia
de que seja a blueberry argentina,
não consegui encaixar o sabor da fruta em qualquer coisa que nos seja familiar.
A fruta rende outras produções: geleias, licores, doces e bolos. E não é coisa
exótica para impressionar turista, as pessoas da cidade gostam do calafate.
O que se atribui às águas de outros
lugares, ali se diz sobre a fruta: quem a prova voltará a El Calafate. As
lendas em torno da planta se justificam pela generosidade de sua frutificação,
que se dá no inverno. Quando tudo estiver sem vida, pálido e gelado, seus
frutos pretos azulados, serão a lembrança do doce e da intensidade da vida.

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