quinta-feira, 1 de março de 2018

Savoir faire



Não é preciso ir a França para saber que o savoir faire do francês teve o pó espanado. Que o responsável pela remoção é o jovem presidente Macron, que a França foi considerada o país do ano em 2017 pela imprensa inglesa e todos estão de acordo que Emannuel Macron é a nova liderança política da Europa. Além disso, seus frequentes embates ideológicos com o presidente americano o colocaram do outro lado.  Donald Trump representa um conservadorismo branco, armado e cheio de excessos, seu discurso no fórum de Davos foi claro: EUA em primeiro lugar! Macron, do outro lado, preferiu palavras como irmãos, integração, clima. Na prática, não sei, governantes falam e erram no mundo inteiro, mas importa sim o zeitgeist - nos movemos conforme o espírito de nosso tempo. E achei que o espírito francês está melhor.

Busquei uma comida mais limpa dessa vez, afastei-me do requinte e da tradicional cozinha francesa. Encontrei boas e ótimas coisas. O Dépôt Légal é, sem dúvida, uma delas. Só não é para almoço ou jantar especificamente, é daqueles lugares que elegemos para matar a fome “fora de hora” ou para um lauto café da manhã. Mas, claro, esse é um entendimento conservador. Para muita gente, uma granola ou smoothies podem figurar como refeição. Além disso, o local tem salada de quinoa, queijo feta e tomate. O interessante do cardápio foi estabelecer a comida pelo recipiente. Assim, os bols (cuia) vem antes da descrição do que eles contem.

Mas, sem dúvida alguma, a estrela do lugar são os doces. A torta de limão vem com descrição soberba e não decepciona; o merengue do chef é de citron vert, a tradução: limão verde - limão Tahiti. Os chefs franceses salivam pelo nosso citrino e demonstram a reverência que nós aqui dispensamos ao caríssimo Siciliano. As éclairs, similares as nossas bombas de chocolate, enfeitam a vitrine e chegam mesmo a nos colocar em dúvida sobre o quanto merecemos nessa vida. Precisava mesmo de tanta beleza para um desfrute tão fugaz? A leveza daquela massa, o caramelo salè, com o creme de chocolate amargo, a fina placa de chocolate equilibrada em dois pingos de creme de baunilha, seriam realmente precisos? Essas joias de comer são comuns aos franceses desde há muito. Nós ainda somos traídos pelo olhar do colonizado.

Embora moderno, o local é apertado, mesas e cadeiras pequenas e colocadas umas nas outras, o assunto é compartilhado. O atendimento é rápido, o preço justo. A beleza e vestimentas dos frequentadores sugeriu algo da moda entre os jovens.

Descrever a apresentação dos pratos seria cansativo e ainda assim falho. Percebi o quanto há de contraste entre o despojo do diálogo e o esmero das criações. Aliás, esse é o ponto essencial: a França começa a acariciar vegetarianos e veganos, mas parece ter entendido muito bem que esse público não está disposto a ser menos exigente - eles só não querem comer carne.

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