Estava tudo combinado de modo simples
e eficaz. Por volta das 11h. da manhã, caminharíamos por dois quarteirões a fim
de experimentar a salada de cascas e restos, servida no restaurante natural Apfel. Há algum tempo, minha filha
insiste que eu a prove e dê, digamos, um parecer mais técnico sobre a tal
salada que ela adora. E assim foi. Chegamos na hora da abertura, escolhemos a
mesa, pedimos suco e a única possibilidade de cerveja da casa foi aceita pelo
meu marido, evitando assim o stress das escolhas. O local estava um pouco
quente, mas nos acomodamos num corredor de ar e luz satisfatórios. Dois foram para
a pista, outro fica para vigiar as coisas. E o que vemos é muito agradável.
O Apfel
é um restaurante natural, orgânico mesmo, que tem a virtude de se virar com o
que lhe é entregue pelos fornecedores orgânicos. Por isso, o cardápio é um
tanto volúvel. A relação entre a comida e a proposta está evidente - e poucas
vezes vi sabor e apresentação tão bons num circuito de pratos que não levam
nada de industrializado nem proteína animal. Fazer uma comida maravilhosa, sem
carne, é fácil, mas sem qualquer insumo animal, é osso.
A salada de cascas estava numa pequena
bacia com a plaquinha indicando do que se tratava: cascas de legumes assadas e
crocantes, acrescentadas aos restos da salada do dia anterior. Seria ótima
ainda que não se tratasse de uma indulgência. Mas todos os pratos estavam muito
bons, além das sobremesas delicadas, como o sagu no chá de hibisco.
Mas a vida é um cipoal e tinha aquele
outro lugar, última casa da rua tal, cujo dono é aquele sobre o qual já ouvimos
falar. Então a possibilidade de, enfim, conhecermos o Piselli- um restaurante
italiano em São Paulo. A hostess nos recebeu, indicou a mesa, cuja cadeira foi
puxada por um garçom. E, no lapso de tempo, entre aterrissar no conforto da
cadeira e tocar o linho do guardanapo dobrado, eu medi a extensão das minhas
frágeis convicções. E assim foi. Escolhi às pressas um filé baixo coberto por
presunto de Parma, acompanhado por nhoque na manteiga de sálvia. Mesmo agora, o
sabor do prato é mais vivo que o teclar do meu computador.
Dormi mal nessa noite, me senti
desconfortável e instada a entender o mecanismo que deflagra toda essa operação
que nos coopta e submete por toda a vida.
Será assim?

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