sábado, 26 de maio de 2018

Fermentos



Ignorei por muito tempo os porquês de se preferir o fermento químico ao bicarbonato de sódio, e vice-versa, no preparo de bolos e pães. De posse de uma receita, agrada-me dialogar com os ingredientes e pensar na função de cada um, mas nesse caso, ao final, acabava por aceitar os poucos gramas dos ácidos e sais sem questionar. Como num exercício musical que a gente esmera os trechos que sabe e corre em fuga nos que não sabe. Pouco ajuda quando a receita pede fermento químico, bicarbonato e sal.

Os fermentos são fontes de gás de ação rápida, são assim porque a maior parte das nossas massas ou são fracas ou são líquidas, e não conseguem segurar as bolhas de ar por muito tempo. Por isso, os fermentos precisam agir rápido. Fermentamos porque não queremos bolos solados nem densos. Respeitamos as pequenas medidas pedidas porque o exagero os fará explodir e murchar depois.

Aqui vale o senso comum. O mais completo e seguro fermento é, sem dúvida, o fermento químico em pó. Não é à toa: ele contém um sistema completo de fermentação, tendo como um dos compostos justamente o bicarbonato de sódio. E o mais importante: tempo de reação variado. Testemunhamos isso assim que misturamos o fermento ao líquido, a massa infla e parece engrossar, é a reação imediata, seguida pela reação lenta, ativada pelo início do calor, e finalmente a reação retardada, ativada pelo calor ao final da cocção. Um sistema complexo orquestrado para que saia do forno aquele bolo que nos encha de orgulho - e permaneça assim, mesmo depois de frio.

O bicarbonato é seletivo, ele reage com alguns ingredientes ácidos, daí as receitas associarem os dois. O bicarbonato pode ser o único fermento da massa desde que haja ingredientes que reajam a ele, a saber: os leites fermentados, iogurte, por exemplo, açúcar mascavo ou melado, cacau em pó não alcalino, sucos de frutas e vinagre.
É bastante comum os bolos que levem cacau pedirem o bicarbonato. De qualquer forma, no caso do cacau em pó, acho mais seguro utilizar os dois fermentos - a questão da alcalinidade pode sacrificar o bolo. O acréscimo de mais bicarbonato, já que o fermento químico já o contém, parece produzir um bolo melhor, mais fofo e mais colorido.

Já o sal, é para temperar mesmo, muito bem vindo mesmo quando a receita é doce, faz a preparação sair do conforto infantil para ganhar maturidade. O sal é imprescindível, além de inimitável, não vem de matéria orgânica, nem de animais, mas do mar, antes disso, veio da rocha. E além de ajudar na conservação dos alimentos, extraordinariamente aperfeiçoa os sabores porque permite a proliferação de bactérias inofensivas produtoras dos sabores. Portanto, o sal consegue fazer mais gostoso também o doce.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Como vinagre para vinagrete



Minha infância foi um tempo descomplicado. Acredito que foi assim para a maioria das crianças daquele tempo, ainda que bastante pobres. Vivi um bom tempo sem afetações, colhendo flores com uma serie só de pétalas e me curando com ervas de ação medicamentosa. Creio que a expulsão do paraíso infantil se dava por duas portas: a do sexo e a da busca pela independência financeira. O preâmbulo não está a aquilatar novos e velhos tempos, absolutamente, mas lamento o estresse a que estão submetidas as crianças modernas. Entrarão para a vida adulta vincadas pelas preocupações. Não imagino saúde mental sem o idílio da inocência. Comida, por exemplo, era a que a mãe fazia: algo simples e inquestionável. As guloseimas eram raras - e que bom que tenha sido assim! E não me recordo de ouvir falar de criança obrigada a qualquer regime alimentar. Ninguém pensou que o excesso de possibilidades alimentares nos levaria onde estamos. 

Arrombamos a casa da bruxa, só que não havia bruxa, só os açúcares e gorduras, que aos poucos consomem nossa saúde.

O reverso é que hoje todos nós pensamos sobre comida. O alimento abandonou o trato digestivo para se instalar no cérebro. As possibilidades de dietas são tantas vezes maiores que os problemas ou as vantagens que prometem tirar ou dar ao corpo, que nos esgotam antes da entrada. E o prego na tampa do caixão é a responsabilidade social dentro do nosso prato de comida – às vezes me sinto bastante angustiada. Não existe resposta simples, mas existe comida simples. E ela deve ser o ponto de partida para todos nós.

Ordinariamente, nossas dietas não pedem substituições, mas o menos, pura e simplesmente: menos, açúcar, menos gordura, menos carne. 

Basicamente, a comida simples é aquela que está reduzida à sua essência, que não se compõe de partes acessórias ou substâncias diferentes, que sofre pequenas intervenções do cozinheiro e é nossa íntima conhecida: o arroz, o feijão em caldo, a cenoura assada, a beterraba ralada, o quiabo cozido, o brócolis branqueado, a vagem no vapor, o cogumelo salteado, a berinjela grelhada, por exemplo.

Cada região tem seu simples, ele tem procedência, o que está perto da gente é singelo e bom. Perseguir uma dieta assim no dia a dia é garantia de saúde, economia e paz, além de ornamentar o prazer dos inevitáveis e desejáveis deslizes.