Ignorei por muito tempo os porquês de
se preferir o fermento químico ao bicarbonato de sódio, e vice-versa, no
preparo de bolos e pães. De posse de uma receita, agrada-me dialogar com os
ingredientes e pensar na função de cada um, mas nesse caso, ao final, acabava
por aceitar os poucos gramas dos ácidos e sais sem questionar. Como num
exercício musical que a gente esmera os trechos que sabe e corre em fuga nos
que não sabe. Pouco ajuda quando a receita pede fermento químico, bicarbonato e
sal.
Os fermentos são fontes de gás de
ação rápida, são assim porque a maior parte das nossas massas ou são fracas ou
são líquidas, e não conseguem segurar as bolhas de ar por muito tempo. Por
isso, os fermentos precisam agir rápido. Fermentamos porque não queremos bolos
solados nem densos. Respeitamos as pequenas medidas pedidas porque o exagero os
fará explodir e murchar depois.
Aqui vale o senso comum. O mais
completo e seguro fermento é, sem dúvida, o fermento químico em pó. Não é à toa:
ele contém um sistema completo de fermentação, tendo como um dos compostos
justamente o bicarbonato de sódio. E o mais importante: tempo de reação
variado. Testemunhamos isso assim que misturamos o fermento ao líquido, a massa
infla e parece engrossar, é a reação imediata, seguida pela reação lenta,
ativada pelo início do calor, e finalmente a reação retardada, ativada pelo
calor ao final da cocção. Um sistema complexo orquestrado para que saia do
forno aquele bolo que nos encha de orgulho - e permaneça assim, mesmo depois de
frio.
O bicarbonato é seletivo, ele reage
com alguns ingredientes ácidos, daí as receitas associarem os dois. O
bicarbonato pode ser o único fermento da massa desde que haja ingredientes que
reajam a ele, a saber: os leites fermentados, iogurte, por exemplo, açúcar
mascavo ou melado, cacau em pó não alcalino, sucos de frutas e vinagre.
É bastante comum os bolos que levem
cacau pedirem o bicarbonato. De qualquer forma, no caso do cacau em pó, acho
mais seguro utilizar os dois fermentos - a questão da alcalinidade pode
sacrificar o bolo. O acréscimo de mais bicarbonato, já que o fermento químico
já o contém, parece produzir um bolo melhor, mais fofo e mais colorido.
Já o sal, é para temperar mesmo,
muito bem vindo mesmo quando a receita é doce, faz a preparação sair do
conforto infantil para ganhar maturidade. O sal é imprescindível, além de
inimitável, não vem de matéria orgânica, nem de animais, mas do mar, antes
disso, veio da rocha. E além de ajudar na conservação dos alimentos,
extraordinariamente aperfeiçoa os sabores porque permite a proliferação de
bactérias inofensivas produtoras dos sabores. Portanto, o sal consegue fazer
mais gostoso também o doce.

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