Quando escrutamos um cardápio
italiano, tradicional, é normal a classificação das opções em: entrada, primeiro
prato, segundo prato, complementos ou contornos e doces. Para mim e, penso eu,
para a maioria das pessoas, essa é uma classificação meio inútil, que nos dá a
impressão de que os “primeiros pratos” estão a meio caminho da entrada e do
prato de “verdade” - bobagem.
Nem me lembrava disso quando, no sul
da Itália, na Sicília, vi casais a minha volta pedirem um prato e daí a pouco
pedirem outro prato. E comecei a reparar e achar todo mundo guloso. Aponto:“olha
lá, ela comeu aquele peixe, agora pediu a massa! Não acredito, comeram a
lagosta, agora pediram um filé!” Até que, ao fazer meu pedido, o garçom anota
um, espera um minuto e então pergunta: E
il secondo piato, signora? Não peço, mas me faz feliz.
Hoje em dia viajamos já sabendo que
aquele papo de “como é bom descobrir outras culturas...” perdeu a relevância. Estamos
imersos num cybermundo que a cada instante nos clona. Por isso, descobrir
hábitos diferentes é surpreendente. A cultura alimentar se mostra, por
excelência, nos ingredientes, mas a maneira como distribuímos nossas refeições
também é cultural. É revelador os italianos distribuírem a refeição em dois ou
mais pratos. A intenção não é engordar, mas celebrar o ato de comer, reduzindo
o ritmo da refeição.
Nós, brasileiros, temos um ótimo
regulamento. Tratamos bem o café da manhã, tanto que o caipira paulista, nós,
chamava esse pequeno almoço de café-de-duas-mãos; depois almoço e jantar bem assentados, podendo haver uma ceia noturna, para os que
sabidamente jantam cedo. O europeu nunca curtiu bem o café da manhã, nosso
hábito os estranhava. Deve ser por isso que o café da manhã na Itália é doce,
só doce. Constitui-se de uma bebida quente doce, café ou cappuccino, com um
corneto (croissant) doce - o recheado com frutas vermelhas é excelente.
Mas a Sicília, a adorável ilha, com
interferência grega ainda bem viva, é um ponto fora da curva. Eles são
aguerridos na defesa de sua cultura e brigam, como bons italianos, em defesa
própria. Assisti a um garçom impedir uma cliente de pedir um salmão, que embora
no cardápio, não é de lá. Por outro lado, os condutores de Vespas passavam
livres sem capacetes, ignorados pela polícia.
Acho que é isso, todos nós erramos e
acertamos, mas os sicilianos, por ora, estão preferindo errar e acertar por
conta própria.
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