sexta-feira, 31 de março de 2017

A grandiosidade do baile da
Ilha Fiscal


A vida social da realeza brasileira foi ao mesmo tempo motivo de orgulho e decepção para nós, brasileiros. Orgulho, porque no comando do admirável Dom Pedro II o reino não dispendia dinheiro público para o regalo dos nobres. Decepcionante porque não se teve por aqui o luxo e beleza que caracterizaria a nobreza na sua quase totalidade mundo a fora. Parece bastante fácil saber o que é certo e o que é errado, mas não podemos nos esquecer das belezas deixadas pelas loucuras de reis como os Luíses da França. Um de nossos historiadores chegou a dizer que a falta de recepções sociais foi uma das causas da queda do império. Uma corte socialmente atuante seria fundamental para manter os seus súditos, bem como se fazer negócios.

Mas tivemos talvez um único momento glorioso, dentro de quase meio século do segundo reinado, um acontecimento capaz de fazer suspirar toda uma cidade, um baile que iluminou todo o Rio de Janeiro, o cais congestionou-se de populares que queriam ver as elegantes damas saírem de suas carruagens e adentrarem aos barcos atracados na Baía da Guanabara. Um evento que marcaria para sempre a história de nosso país.

O Baile da Ilha Fiscal foi organizado pela monarquia, que desejava homenagear o comandante e marinheiros de um navio chileno. A luz elétrica era uma quase novidade e, por isso, o império iluminou o quanto pode a ilha, prédios, a água, adivinhando o efeito mágico que seria ver a luz esparramada em negras águas.
O bufê ficou a cargo da Confeitaria Paschoal, que era a preferida de Dom Pedro II - não era a Colombo. Cerca de 90 cozinheiros e ajudantes se empenharam para que fosse tudo perfeito e em quantidades assustadoras, como as 12 mil porções de sorvetes para 3 mil convidados. A inclinação natural do cardápio foi francesa, a comida brasileira não possuía envergadura para tamanho glamour. Entre outras coisas, foram servidas 1.200 latas de aspargos, 1.200 frangos, 3.500 peças de caça, 1.500 costeletas de carneiro, 18 mil frutas, tudo regado a Champagne, Bordeaux e Borgonha.

Dizem que a festa transcorreu muito bem comportada enquanto a majestade se fazia presente. Mas que, madrugada já avançada, o que se viu foi bem menos elegante. Um dos jornais divulgou de forma sensacionalista a lista de objetos perdidos e encontrados na ilha, dentre eles, 16 ligas femininas, para alegria geral do povo.
O baile da Ilha Fiscal virou livro, porque muito além do luxo, marcou o fim da Monarquia e o início da República, digamos que um batismo de fogo para esse e o desterro daquele.

Dias depois, o Brasil já República, Rui Barbosa, Ministro da Fazenda, em inspeção a Ilha, ordenou que tudo viesse a baixo, porque um monumento ao Império. Para sorte nossa um engenheiro, republicano, estava presente e pediu como única consideração da República: que tudo fique no lugar. E está lá: um palacete de 2.300 m2, com vitrais coloridos que retratam de um lado Dom Pedro II, do outro, a Princesa Isabel.  É fácil ver a Ilha, ainda do avião, quando se chega ao Rio de Janeiro. Mas é pouco, deve-se ir até lá.
O figo e minha infância


Não sei quando exatamente me foi apresentada uma banana ou uma maçã, mas sei dizer exatamente quando e onde eu conheci um figo. Eu tinha quatro anos de idade, nós morávamos na rua Homero Alves, um fim de mundo, naquele tempo. Não tínhamos lá um grande quintal, era mais um cimentado, que ostentava um buraco solitário, de onde uma teimosa árvore nasceu, cresceu e frutificou. Bonita, até: umas folhas desenhadas, meio ásperas, de estatura mediana, dava uma sombra suficiente à brincadeira de criança, nenhuma unanimidade de mangueira. Logo abaixo dela, três degraus que marcavam o início do corredor que dava direto na rua, não fosse pelo pequeno obstáculo - um portão de ferro onde eu encaixava os pés para poder me balançar. Durante esse ano de minha infância eu fiquei por ali:  casa, pé de figo e um portão que mais balançava que assegurava.

Vem dessa época também a lembrança de minha primeira desobediência. Já haviam me informado que lugar de xixi era na privada, mas todas as manhãs eu driblava minha mãe para poder fazer xixi no quintal, debaixo do pé figo, pelo prazer de ver o líquido escorrer escada abaixo. Almejava o dia em que ele alcançaria e transporia a rua para desfrutar de uma líquida liberdade.

Mas um dia, tudo mudou. Começou com um cheiro suave a insinuar que almas pequeninas também têm desertos. Eu já sabia que aquilo não seria simples como chuchu, a cada vez que eu o sentia era cutucada por algo indefinido. O perfume de minha mãe era Leite de Rosas, da vizinha Alfazema, o luxo era Toque de Amor, da Avon, e aquele cheiro de comer a brincar comigo, fazendo tudo a meu redor mais prazeroso: a casa, o xixi, o balanço no portão. Em tempo: minha mãe se prostrou debaixo do pé de minha árvore, colheu tudo e fez um doce. Claro, os figos da minha infância são os verdes dos deliciosos doces caipiras, uma pintura quando acompanhado por um pedaço de queijo fresco.

Mas meu assunto nem era desses aí, mas os roxos. “Roxos de Valinho” porque essa cidade é grande produtora dos figos roxos da nossa região - tão bonitos, perfumados. Com bom preço, ultimamente, eles foram a fruta por mim escolhida para compor a sobremesa de mais um jantar harmonizado com vinhos. Volto a falar disso. No entanto, o que me levou a pensar tanto nessa fruta foi a sua fragilidade, também pudera, ela é uma flor: o figo é uma inflorescência, que significa exatamente que ele termina em flor, por isso o perfume que não se define da cozinha ou da toalete. Por isso, seu invólucro é tão delicado e se estraga com a rapidez das horas.

Como é difícil comprar uma caixa de figos maduros, não podres. Aprendi que limpá-los, ao invés de lavá-los, é um pouco melhor; que geladeira só para os totalmente maduros, mas, claro, eles já podem estar podres. Mas com o tempo aprendi que eles combinam com tudo, seja do sal, seja do doce, seja à sedução. O doce ameno, a levíssima crocância em meio a tanta maciez é prato cheio para dias ou noites que se propuserem ao mínimo de magia. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Baunilha: um capricho da Natureza


Imaginei que, quando chegasse numa plantação de baunilha, eu seria arrebatada com aquele perfume cor de creme, sobretudo se se tratasse da exótica e cobiçada Baunilha Tahitian. Mas não: as grandes vagens cheiravam igualmente a todas as outras vagens que conhecemos, ou seja, nada. Enormes vagens verdes encerravam no seu núcleo hermeticamente fechado o tesouro perfumado, era preciso esperar.

Até bem pouco tempo, a única baunilha que conhecíamos vinha do Dr Oetker, em vidros - ainda assim, usamos e abusamos desse que vem a ser um dos cheiros que mais amamos. 

Do perfume Chanel n.5 ao creme pâtisserie, somos todos atraídos por ele e a vontade que se tem de “comê-lo” é quase inevitável, uma sedução.

A baunilha é uma orquídea que dá flor, mas se parece mais com uma trepadeira que se alastra e vai soltando vagens verdes luzidias. Importante: de toda a grande família das orquídeas, o único produto comestível é a baunilha. Ela foi descoberta pelos astecas, que, com grande sabedoria gastronômica, as misturavam ao cacau, resultando na bebida por eles batizada de xocolat. Então sabemos que a baunilha originalmente veio do México e de lá ganhou o mundo pelas mãos dos espanhóis.

Existem duas grandes famílias de baunilhas, a Bourbon e a Tahitian. A primeira é produzida em Madagascar e Ilha da Reunião. Essas duas ilhas são responsáveis pela produção de mais de 70% de toda a baunilha utilizada no mundo. E é essa qualidade que tem sabor e cheiro mais potentes.

A que vimos é do tipo Tahitian, óbvio: vem do Tahiti. E tem cheiro e sabor mais frutado, lembra uvas passas, cassis, alcaçuz. Também por isso, vai bem até com carnes. E é perfeita para compotas. Acostumados que estamos com a essência falsa de baunilha, não imaginamos as nuances que existem entre as famílias de baunilhas, mas elas existem.

E o Brasil?  Claro, descobrimos há pouco que no nosso cerrado dá baunilha, que inclusive suas vagens são ainda maiores, embora o perfume seja um pouco mais discreto. Há um belo restaurante em Brasília, o Aquavit que faz um trabalho de descoberta das combinações dessa especiaria.


Mas por que seu preço é tão alto? Aliás, é a segunda especiaria mais cara do mundo, perdendo apenas para o pistilo de Açafrão. Porque a sua polinização é um drama. A orquídea dessa espécie não se deixa fecundar, a planta é hermafrodita - e o que poderia ser bem simples, se complicou. Uma membrana recobre o órgão feminino da planta que impede que o pólen chegue até ele. O caso é resolvido por uma pequena abelha que, enganada pelo odor que a flor solta, introduz seu ferrão cheio de pólen e faz, por acaso, a polinização da orquídea. Por isso, ela é rara e cara, há que haver uma combinação milagrosa da natureza para que tenhamos essa incrível especiaria. Ah! Essa flor dura apenas 1 dia! É possível fazer a polinização manualmente: levanta-se a membrana da flor e introduz-se um bambu bem fino cheio de pólen, um trabalho igualmente desafiador.  Por isso, ela deverá continuar rara e cara e com uma aura de magia digna de ilhas como Madagascar e o Tahiti. 

Ouro dos não tolos



O capim dourado trançado reluzia de modo discreto como uma fina joia Zenú ou Etrusca, tão valiosas quanto discretas. Bem observada, percebia-se que o cabelo da trança não estava penteado, disciplinado ao modo dos géis, mais se parecia com um dread – embora naquela época, para mim, isso não existisse. A giganta perdeu o seu colar, era o que eu imaginava todas as vezes que eu via na cozinha da minha mãe uma réstia de cebolas pendurada, ou qual seria o tamanho da ostra que parira aquelas baitas pérolas cor de âmbar. Ainda hoje uma cebola de bom tamanho, dourada, cascas finas que se soltam ao contato com as mãos, não me é indiferente e me é prazeroso cortá-la dum golpe só, com a casca, interior de roseira, ácidas pétalas brancas que fazem chorar, uma das maiores células que existem (?) observadas no microscópio da escola pública.

Mas me lembrei disso justamente porque nunca mais eu vi uma réstia de cebolas. E fui saber disso com quem entende. Perguntei ao feirante, Rodrigo, filho do sr. João, que fim levaram as réstias de cebola? A resposta é aquela mesma que a gente pensa: Ah, os velhos morrem e os jovens não fazem mais o que seus pais faziam. Mas também por outro motivo, compramos cebolas vindas da Bahia, de Goiás, vários atravessadores e comerciantes que não vão ficar trançando réstias, naturalmente. Tanto que, me disse ele, ainda se vê, inclusive pode-se encomendar uma, mas só quando a safra de cebolas é daqui de perto, como Monte Alto, quando eles compram de quem produziu.

Para minha surpresa, pode-se utilizar um capim para o trançado, o que garante maior segurança, porque a rama da cebola pode estar fraca e não suportar os pingentes. Meu feirante disse que não vê motivos para isso, acha que a réstia original só pode ser feita da rama da própria cebola. “Ademais, é exatamente a rama seca o indicador de que a cebola está madura”. Ocorreu-me também que eu nunca vi uma cebola verdolenta. Outra coisa que me recordo é que, quando eu comprava cebolas, elas eram pesadas e quando era a réstia não. Ao que parece, dependendo de quem faz a réstia, elas terão mais ou menos o mesmo peso, questão de confiança.

Coisa do passado, porque hoje em dia a réstia é pesada e assim vendida, claro que nesse caso a réstia vira cebola, para todos os efeitos.

Na casa da minha infância, o normal era comprarmos uma cebola, só não era meia pela impossibilidade, por isso, pra ser honesta, quando eu via a réstia de cebolas penduradas na nossa cozinha era o sinal de que as coisas estavam bem, se tudo aquilo era só para o começo, imaginem só a riqueza dos refogados...

sexta-feira, 17 de março de 2017

Jejuns e temperança


Uma amiga, professora de ginástica, tem se mostrado preocupada porque numa mesma semana duas alunas dela desmaiaram durante a Zumba – uma aula de dança intensa que está na moda. O motivo? O jejum. Quem nos escutou bem poderia ter associado a atitude das moças com o período da quaresma. Estariam elas aproveitado a privação do prazer da comida para uma suposta purificação da carne? Nada disso! Os antenados saberão se tratar de uma novidade do mundo fitness, a saber, o jejum intermitente, uma das novas armas para o emagrecimento rápido.

Santo Agostinho, muito antes disso sabia: “o que basta à saúde é insuficiente para o prazer” - essa boa frase do santo nos leva direto ao centro do trocadilho bobo que diz que a gente deve comer para viver e não viver para comer. Para santo Agostinho, que se assumia pecador, manter-se fiel a uma alimentação justa, ou seja, aquela que lhe garantisse uma sobrevivência saudável e nada mais, era a garantia de afugentar o prazer e os demais problemas advindos da gula.

Ao que parece, a nova técnica de se ficar longos períodos sem consumir qualquer alimento tem dado resultados práticos, embora bata de frente com a famosa orientação nutricional de se comer de três em três horas que, aliás, aborrece muita gente. Sobretudo aqueles que têm o hábito de só tomar café, almoçar e jantar.  O jejum intermitente também veste como luva aqueles que não gostam de tomar café da manhã. São muitas as pessoas que não sentem fome pela manhã e partem direto para o almoço. Foi o caso das meninas que desmaiaram, a dobradinha: esforço físico intenso e nada de café da manhã pode nos levar a ver “estrelinhas”.

A ciência afirma ver benefícios na saúde de quem faz jejum prolongado, o que se comprovou através da observação na saúde do corpo dos fiéis que se submeteram aos longos jejuns religiosos: a quaresma dos católicos, o Ramadã dos mulçumanos. Sinceramente, acho precipitada essa conclusão. Se não for levado em conta o componente religioso, os pesos e medidas materialistas serão insuficientes nesse caso. Porque a ciência também já se pronunciou sobre os efeitos benéficos da prece e da fé no corpo físico do Homem.

Então, não seria a temperança uma virtude a ser cultivada? Uma boa alimentação, diversificada, prazerosa, que garanta saúde ao corpo quer esteja em repouso, quer esteja em movimento, não seria uma coisa boa? Uma outra amiga minha vê o jejum religioso atualmente como algo metafórico: jejum ao ódio, ao preconceito, à intolerância - apreciei esse entendimento secular.

Mas o exercício da fé, desmesurado, pode ser uma deliciosa janela aberta para o sol, traduzida na humilde atitude de se repousar os talheres.
Fruta-pão, o símbolo do Tahiti



Durante minhas andanças pelo outro lado do mundo, conheci um templo religioso quase não construído pelo homem, tendo por única intervenção um baixo e largo muro de pedras sobrepostas. Uma falha nesse muro determina a entrada, donde se deduz que a utilização da falha como porta era por puro respeito, uma vez que qualquer criança poderia facilmente pular o muro. Dentro, algumas pedras demarcavam o local que cada família deveria permanecer, pedras grandes, pedras pontudas, tinham uma função hierárquica que se perdeu no tempo. Ao redor de todo o muro, cresce uma folhagem que acreditam proteger os bons espíritos que ali habitam - deve-se arrancar uma folha, fazer uma prece, colocar a folha em cima do muro com uma pedra para segurá-la. O templo é pequeno, sombreado pela floresta formada por árvores de fruta-pão. Mas não era para todos: só a linhagem nobre poderia transpor o muro, o povo ficava de fora assistindo a cerimônia, que poderia ser até sacrificial.

E é a fruta-pão que é o símbolo do Tahiti. Pode-se vê-la plantada em todos os lugares, casas, praças, florestas. Os nativos não parecem mais comê-la, mas elas reinam absolutas e se integram muito bem à imagem que fazemos do Tahiti: uma natureza que tudo provê.
No entanto, o significado dessa fruta para o povo vai muito além da gastronomia. Quando adentramos a catedral de Papeete, uma bela construção que data do século XIX, somos recepcionados com a imagem de Nossa Senhora talhada na madeira e segurando um menino Jesus com cara de sapeca. Ele segura uma enorme fruta-pão. E se hoje os taitianos já não precisam tanto recorrer a ela, no passado a fruta-pão foi responsável pela manutenção da saúde, utilizada com sucesso contra o escorbuto, ela é fonte de energia que sozinha alimentava. Cortada em rodelas, poderia ser frita ou cozida, por isso ser considerada boa como um pão. E também por isso o significado espiritual, ser chamada de fruto de Maria ou pão de Jesus. Um correspondente nosso? A mandioca, com certeza!

Apesar de toda a “culturação” a que foi submetido o povo polinésio (último povo a receber a influência europeia) pode-se pinçar aqui e ali traços bem marcantes da cultura original. Permite-se, por exemplo, que os santos católicos, na igreja, sejam enfeitados com aqueles colares com os quais todos os turistas são presenteados. Os personagens da via-sacra estão vestidos com pareôs – trajes típicos da ilha. Nas ruas, as pessoas não usam sapatos, no máximo, chinelos. Mas vimos pessoas carregando os chinelos e pisando descalças as ruas. E todas as mulheres, independentemente da idade, da beleza, dos dentes, usam as flores no cabelo, do lado esquerdo, se casadas, do lado direito, se solteiras, tal qual uma aliança que une passado e presente.

sexta-feira, 10 de março de 2017

A santidade possível


A definição atraente foi o gancho que susteve por minutos a minha imaginação, pareceu-me algo de grande poder. O livrinho antigo, capa verde, impressão barata tinha muito a dizer e eu queria ouvir: “meditação é a direção ativa, constante de sua consciência para um tema escolhido, sem quaisquer desvios ou omissões, mantendo-o diante de sua mente pelo tempo necessário”. Segui, obedeci às indicações de leituras espirituais e meu relacionamento com o escritor foi se estreitando de tal forma que não se tratava mais de leitura, mas de digestão - eu comia e digeria as palavras. Até que sofri um revés, o escritor disse algo como: “uma taça de vinho é o máximo de intoxicação permitida, ainda assim impossibilita por horas a meditação, o sexo representa uma perda considerável de energia prânica...” E, sim, ele dava alternativas: “talvez esse não seja o momento certo para seu espírito apreender tais conhecimentos”. Um certo caia fora bem bonzinho. 

Fiquei um pouco chateada, mas preferi achar que as sugestões tinham um certo odeur de sainteté, impossível de alcançar.
E não é que dia desses fui novamente descartada pelas minhas fraquezas! Ganhei de presente o livro “Lugar de médico é na cozinha”. A princípio quis ler só para poder discordar muito, porque tenho antipatia dessa conversa nova de se transformar comida em remédio, embora, o contrário disso, seja terrível. Mas o tom de apresentação do médico autor é de tanto amor, que sinceramente coíbe a arrogância, e o que se sente é uma vontade secreta de seguir adiante com umas das mais difíceis dietas de se fazer: a crugívera. Não digo exatamente pelo gosto, sou bem doente por hortaliças, penso mesmo é na aposentadoria do forno/fogão: nunca mais saltear, fritar, assar; nunca mais o cheiro daquela sopa, que toda chuva em fim de tarde me traz à memória; nunca mais o cheiro do bolo caipira, que de dentro do forno de modo fofo nos diz: estou pronto. Ou do frango caipira dourando numa cama de cebolas, Ah!, as cebolas...como não dourá-las? Do vinho branco do assado. Ou até coisas bem simples, como o cheiro infantil da estopa branca que levanta a tampa da panela, fazendo-nos sorrir e dizer: esse milho é ótimo, não ficou um só piruá.

O livro do doutor Alberto não é para ser descartado, de modo algum, recomendo demais a leitura, ainda que de forma alegórica. Mas ele tem ensinamentos preciosos que deveriam ser regra para nós, como a diminuição radical dos açúcares e o não consumo dos alimentos super processados. Mas dá para ir além, ele ensina o passo a passo da germinação das sementes - e funciona. Testei e fiquei comovida ao ver os narizinhos apontarem nas lentilhas, que ficam amarelas depois de removidas as cascas. O gosto é bom, e incluir na alimentação os germinados, além de lindo, é um presente à saúde.
O médico sabe das dificuldades de uma escolha como essa, sabe, assim como sabia o mestre iogue.

Mas pode haver um momento na vida em que a nossa biografia se encontra com a nossa identidade, e aí ficará tudo fácil.       
Quando a arte põe comida à mesa




Às vezes, tudo dá certo, tudo funciona perfeitamente e somos enlevados. Só a arte é capaz de nos tirar da mesmice da continuação dos atos repetitivos a que chamamos de quotidiano, de rotina. E mesmo quando a arte trata da rotina de alguém, mesmo quando o que vemos na tela é uma sucessão de acontecimentos, a rotina de uma adolescente pode nos enlevar.

Azul é a cor mais quente, o filme ganhador da Palma de Ouro 2013, é para ser apreciado, degustado, para usar adjetivo mais propício a nós. Há tempos não via um diretor que lançasse mão de todas as artes para fazer da sua arte uma ainda melhor. Nada sobra nas três horas de filme, somos carregados pela mão, parecem 15 minutos de filme e ele faz da gente o que bem quer. E, depois, carregamos com a gente a beleza de sua filmagem sem tratamento, dizem, apenas luz.

Então se o caso da protagonista é de um amor à primeira vista, ele lança mão de um best seller francês de 1678: A Princesa de Clèves – uma referência literária incomparável na arte do amor e galanteria. Engraçado que o presidente Sarkozy, em 2009, considerou esse livro irrelevante na educação francesa, o que causou certo reboliço. Então o diretor é ainda mais esperto.

As metáforas do filme passeiam definitivamente pela comida. O diretor, a meu ver, tem dois pontos de partida com a comida. Um é a distinção de classe social entre as personagens principais; a outro é a comida como maturidade, a comida como rito de passagem, e essa é, naturalmente, a melhor parte.

Adèle, a mais nova, a inocente, a mais pobre, janta macarrão à bolonhesa, e ela parte o macarrão e lambe a faca e assiste TV enquanto come e fala de boca tão aberta que podemos espiar a comida boca a dentro.

E aí tem a comida partilhada no amor, digamos “correto” e adolescente: um Gyro, que é um lanche grego tradicionalíssimo, que provavelmente originou nosso churrasquinho grego. O Gyro tem recheio de carne assada num grande espeto vertical que fica girando e é finamente cortada. O lanche tem pão, claro, e é o pão Pita, que se parece com o pão Sírio, mas tem sabor e textura diferentes. Faz-se um cone com esse pão, recheando-o com carne, cebola e tomates.

Mas o tempo passa e o diretor nos prepara para o que virá, cita que o vício natural da água é a gravidade e que não se foge aos vícios naturais. Depois expõe à personagem, que prefere comer tudo o que é tipo de peles, a sofisticação e intimidade dos mariscos, dos frutos do mar.

As ostras são o ponto central, óbvia escolha, a aparência insidiosa, a textura sugestiva, que é a razão da repulsa pela personagem e, por fim, mais tarde, saber que o melhor que se faz com elas é comê-las ainda vivas, agonizantes no ácido do limão. Adèle as aceita, gosta e repete.

O diretor não está de acordo que se viva com amor, ele prefere que se morra de paixão, aliás, como os franceses adoram, ele também não pretende que se coma com civilidade, ela nos incita à lambança.

É filme pra se ver com o mínimo de preconceito e de barriga vazia - para aproveitar a fome que pode bater depois.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Árvores universitárias



A fileira de mesas e cadeiras era enorme, mesas de madeira, cadeiras, idem, com estofamento vermelho - percebia-se que alguém cuidadoso fora o autor daquele alinhamento perfeito. Pedi um café, uma água e, quando fui me sentar, senti-me confusa com tamanha disponibilidade de assentos, escolhi um canto. Estava fresco ainda, a manhã das 7 horas me pediu uma blusinha, mas agora perto das 9 horas me sentia confortável sem ela. Olhei a volta e desejei ardentemente que minha filha pudesse ser parte daquela beleza.

Para se ter uma ideia, a área da cidade universitária – da USP - é de 5 vezes o tamanho do parque Ibirapuera, visto de cima uma bela manche verde, ao modo de uma mata. Para quem imerge nela percebe-se que são árvores plantadas, elas obedecem a um desenho, mas ainda assim, são as donas do lugar, os prédios dissimularam a arrogância, deram um passinho para trás, permitindo que tudo ficasse verde - e a sensação é ótima.
Além das palmeiras ornamentais, além das tão paulistanas Sibipirunas e Ipês, há uma variedade grande de árvores frutíferas. A Natália, do restaurante da Politécnica, explicou-me que são mais de 12 mil, entre acerolas, pitangas, goiabeiras, goiabinhas e dilênias. Dilênias?! Sim, estavam bem ali na minha frente. É uma árvore de porte baixo com uma fruta que parece fruta do conde, mas não é. Perguntei se eles haviam experimentado, Natália me disse que não, o cheiro não lhe parecia convidativo.

Fui pesquisar a tal dilênia, conhecida como maçã de elefante. Ela tem um sabor de maçã verde, mas ainda verde. Muito fibrosa, parece que, cozida para a extração do caldo, é seu melhor viés. Não é originária do nosso continente, é asiática, foi trazida para cá no Brasil Imperial e plantada inicialmente no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, depois chegou a São Paulo, sem muito sucesso, como podemos ver.
Depois fui ver as tais goiabinhas, que são na verdade araçás. São naturalmente da mesma família das goiabas, mas tem sabor diferente e são pequeninas. Os araçás são nativos da região, embora sejam originários do cerrado brasileiro. Estão por lá muito antes da USP, cobriam boa parte do território da fazenda Butantan, mais tarde doada para se transformar na Cidade Universitária.

O araçá, quase maduro no pé, de verde vai passando ao vermelho vivo. No cerrado brasileiro, indica o início das chuvas, mas foi, durante muito tempo, a indicação do melhor período de fuga para os escravos, porque as águas apagariam suas pegadas e a fruta asseguraria a sobrevivência deles.

Antigo símbolo da esperança de liberdade, os araçás verdes ou encarnados, indicam hoje, ainda bem, apenas o passar e o chegar de estações, coisa que minha filha, jovem e sonhadora, poderá apreciar.


O limite da pesca




A pesca, o peixe, o pescador são, há muito, matéria prima da poesia. O embate homem, mar e peixe bateu redes além mar e encantou até aqueles que preferem o seco. Penso que não é só a dificuldade da atividade que encanta, os carvoeiros, por exemplo, as tem em dobro e não encantam - é a magia. Existe o mundo dos homens e o mundo dos peixes - e existem alguns pouco exemplares torrados por sol e mar que se aventuram nos dois mundos. Vão, confiando em alguns pés de comprimento, equilibrando-se na fina tensão aquática, surrupiar seres delicados para ganharem a vida.

A pesca, para quem não pesca, é poesia pura, parece não caber maldade num coração pescador. Em sã consciência sabemos que não é assim. De modo que diante, dos tristes fatos, vemos desaparecendo a pesca tal qual foi concebida, assim como vemos florescer a piscicultura. Não quero mesmo fazer juízo de valor aqui, a piscicultura tem seu valor e problemas.

Chegamos, enfim, a todos os lugares, conseguimos, antes de conhecer, antes do saber, buscar o peixe em cada canto de mar e oceano, a ponto de, hoje, não existir mais nenhum estoque virgem de pesca, além de 32% desses estoques já estarem saturados. Vamos cada vez mais fundo, cada vez mais longe. A isso damos o nome de esforço de pesca que é cada dia mais tecnológico, e mais distante. Por isso, o peixe é cada dia mais caro.

Assisti a um vídeo elaborado no Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo, onde vários membros interessados na pesca discutiam o impacto humano sobre os oceanos e suas populações e podemos ver, claramente, que alguns espécimes são inviáveis. Tomemos como exemplo o atum, parece simples para o oceano gerar um peixe como o atum, mas não é. Para se ter um quilo de carne de atum, o oceano precisa lhe fornecer 10 mil quilos de fitoplancto! Para trazê-lo para a terra precisa-se de um barco específico, o longline. Esses barcos permanecem de 20 a 25 dias em alto mar, equipamentos tecnológicos rastreiam os cardumes, consome-se nessa investida 30 mil litros de óleo diesel, 10 toneladas de gelo e 5 mil reais em rancho - que é a comida dos pescadores-, resultado: custos de 50 a 70 mil reais! E às vezes eles voltam sem o atum...

O camarão - o caro, tenro e delicado camarão-, a sua captura é ingrata e de um impacto doloroso.  A rede de arrasto, que é a utilizada para a sua captura, traz junto dos camarões um mar de coisas indesejáveis que representam de 80% a 90% do total. Ou seja, a cada vez que a rede é içada quase 90% do peso é rejeito que volta morto para o oceano. Gente, isso deveria ser inaceitável...
Assistindo ao vídeo, somando-se ao que nós já sabemos, ao preço dos peixes, ao fato inegável de se tratar de reservas esgotáveis, vê-se que o mar não está para peixe. O boom da pesca se deu nos anos 80, de lá pra cá o declínio, justamente agora que cresce o consumo per capita, impulsionado, sobretudo, pelos restaurantes japoneses. Bom para a piscicultura, que poderá nadar de braçada...