sexta-feira, 10 de março de 2017

A santidade possível


A definição atraente foi o gancho que susteve por minutos a minha imaginação, pareceu-me algo de grande poder. O livrinho antigo, capa verde, impressão barata tinha muito a dizer e eu queria ouvir: “meditação é a direção ativa, constante de sua consciência para um tema escolhido, sem quaisquer desvios ou omissões, mantendo-o diante de sua mente pelo tempo necessário”. Segui, obedeci às indicações de leituras espirituais e meu relacionamento com o escritor foi se estreitando de tal forma que não se tratava mais de leitura, mas de digestão - eu comia e digeria as palavras. Até que sofri um revés, o escritor disse algo como: “uma taça de vinho é o máximo de intoxicação permitida, ainda assim impossibilita por horas a meditação, o sexo representa uma perda considerável de energia prânica...” E, sim, ele dava alternativas: “talvez esse não seja o momento certo para seu espírito apreender tais conhecimentos”. Um certo caia fora bem bonzinho. 

Fiquei um pouco chateada, mas preferi achar que as sugestões tinham um certo odeur de sainteté, impossível de alcançar.
E não é que dia desses fui novamente descartada pelas minhas fraquezas! Ganhei de presente o livro “Lugar de médico é na cozinha”. A princípio quis ler só para poder discordar muito, porque tenho antipatia dessa conversa nova de se transformar comida em remédio, embora, o contrário disso, seja terrível. Mas o tom de apresentação do médico autor é de tanto amor, que sinceramente coíbe a arrogância, e o que se sente é uma vontade secreta de seguir adiante com umas das mais difíceis dietas de se fazer: a crugívera. Não digo exatamente pelo gosto, sou bem doente por hortaliças, penso mesmo é na aposentadoria do forno/fogão: nunca mais saltear, fritar, assar; nunca mais o cheiro daquela sopa, que toda chuva em fim de tarde me traz à memória; nunca mais o cheiro do bolo caipira, que de dentro do forno de modo fofo nos diz: estou pronto. Ou do frango caipira dourando numa cama de cebolas, Ah!, as cebolas...como não dourá-las? Do vinho branco do assado. Ou até coisas bem simples, como o cheiro infantil da estopa branca que levanta a tampa da panela, fazendo-nos sorrir e dizer: esse milho é ótimo, não ficou um só piruá.

O livro do doutor Alberto não é para ser descartado, de modo algum, recomendo demais a leitura, ainda que de forma alegórica. Mas ele tem ensinamentos preciosos que deveriam ser regra para nós, como a diminuição radical dos açúcares e o não consumo dos alimentos super processados. Mas dá para ir além, ele ensina o passo a passo da germinação das sementes - e funciona. Testei e fiquei comovida ao ver os narizinhos apontarem nas lentilhas, que ficam amarelas depois de removidas as cascas. O gosto é bom, e incluir na alimentação os germinados, além de lindo, é um presente à saúde.
O médico sabe das dificuldades de uma escolha como essa, sabe, assim como sabia o mestre iogue.

Mas pode haver um momento na vida em que a nossa biografia se encontra com a nossa identidade, e aí ficará tudo fácil.       

Nenhum comentário:

Postar um comentário