A santidade possível
A definição atraente foi o gancho que
susteve por minutos a minha imaginação, pareceu-me algo de grande poder. O livrinho
antigo, capa verde, impressão barata tinha muito a dizer e eu queria ouvir:
“meditação é a direção ativa, constante de sua consciência para um tema
escolhido, sem quaisquer desvios ou omissões, mantendo-o diante de sua mente
pelo tempo necessário”. Segui, obedeci às indicações de leituras espirituais e
meu relacionamento com o escritor foi se estreitando de tal forma que não se
tratava mais de leitura, mas de digestão - eu comia e digeria as palavras. Até
que sofri um revés, o escritor disse algo como: “uma taça de vinho é o máximo
de intoxicação permitida, ainda assim impossibilita por horas a meditação, o
sexo representa uma perda considerável de energia prânica...” E, sim, ele dava
alternativas: “talvez esse não seja o momento certo para seu espírito apreender
tais conhecimentos”. Um certo caia fora
bem bonzinho.
Fiquei um pouco chateada, mas preferi achar que as sugestões
tinham um certo odeur de sainteté,
impossível de alcançar.
E não é que dia desses fui novamente
descartada pelas minhas fraquezas! Ganhei de presente o livro “Lugar de médico é na cozinha”. A
princípio quis ler só para poder discordar muito, porque tenho antipatia dessa
conversa nova de se transformar comida em remédio, embora, o contrário disso,
seja terrível. Mas o tom de apresentação do médico autor é de tanto amor, que sinceramente
coíbe a arrogância, e o que se sente é uma vontade secreta de seguir adiante
com umas das mais difíceis dietas de se fazer: a crugívera. Não digo exatamente
pelo gosto, sou bem doente por hortaliças, penso mesmo é na aposentadoria do forno/fogão:
nunca mais saltear, fritar, assar; nunca mais o cheiro daquela sopa, que toda
chuva em fim de tarde me traz à memória; nunca mais o cheiro do bolo caipira,
que de dentro do forno de modo fofo nos diz: estou pronto. Ou do frango caipira
dourando numa cama de cebolas, Ah!, as cebolas...como não dourá-las? Do vinho
branco do assado. Ou até coisas bem simples, como o cheiro infantil da estopa
branca que levanta a tampa da panela, fazendo-nos sorrir e dizer: esse milho é
ótimo, não ficou um só piruá.
O livro do doutor Alberto não é para
ser descartado, de modo algum, recomendo demais a leitura, ainda que de forma
alegórica. Mas ele tem ensinamentos preciosos que deveriam ser regra para nós,
como a diminuição radical dos açúcares e o não consumo dos alimentos super
processados. Mas dá para ir além, ele ensina o passo a passo da germinação das
sementes - e funciona. Testei e fiquei comovida ao ver os narizinhos apontarem
nas lentilhas, que ficam amarelas depois de removidas as cascas. O gosto é bom,
e incluir na alimentação os germinados, além de lindo, é um presente à saúde.
O médico sabe das dificuldades de uma
escolha como essa, sabe, assim como sabia o mestre iogue.
Mas pode haver um momento na vida em
que a nossa biografia se encontra com a nossa identidade, e aí ficará tudo
fácil.

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