quarta-feira, 13 de junho de 2018

Um elo entre nós



Nós também começamos com bem pouco. Decidimos que teríamos uma porção agradável de legumes para servir. Não que houvesse horda de pedidos, nós pretendíamos antecipar a demanda, melhor que isso, incitar a demanda. No entanto, originalidade zero! Rio com a matéria da Folha de S. Paulo que relata justo isso: o crescimento da demanda e oferta de legumes nos restaurantes. Aliás, melhor tratarmos de hortaliças, essa bela palavra que vem da horta e contempla tudo: legumes, verduras e ervas. Acredito que mesmo a compra de ervas, hoje em dia, seja maior do que antes, uma coisa puxa a outra.

Começamos pelas raízes óbvias: a batata doce, a cenoura, a mandioquinha, a batata inglesa e o “moderno” brócolis japonês - um de cada cor, ficava bonito. Tampouco o método de preparo se manteve, cozinhávamos no vapor, esfriávamos na água fria para interromper o cozimento do calor residual, depois secávamos, embalávamos e congelávamos. Como se pode ver, o excesso de verbos revela excesso de trabalho também. Era um bom método, mas, às vezes, pequenas gotinhas de gelo se formavam nos palitos de cenoura, nas copas dos brócolis, e o resultado era a moleza, algo inaceitável se estamos a tratar de legumes.

Houve também o tempo das incorporações: cabotiá, cebola, vagem, palmito, chuchu, às vezes cogumelo, às vezes ervilha torta, dependendo da estação. A mais recente foi a troca do pedaço de batata inglesa pela batata bolinha com casca e cortada ao meio, ficamos assim com semiesferas, cilindros, cones, floretes...chegamos ao ponto: eu não dou conta de comer nossa porção de legumes.

Desse conjunto, se sobressai a cabotiá. Alguns clientes só aceitam o resto se ela estiver junto, outros desejam tudo, menos ela. Ela segue firme, embora seu preparo e temperos sejam personalíssimo, só ela é assada. Para levar ao cliente, pior ainda, se a colocamos junto aos outros, na mesma frigideira, tudo sairá borrado de cabotiá – oito bocas de fogão, às vezes ocupadas com enormes panelas com caldos, pato, cinco quilos de rabada, e a gente avista uma frigideira enorme ocupando uma boca com um mísero pedaço de cabotiá. Mas a gente gosta dela mesmo assim.

O que começou com um desejo meu acabou virando uma obsessão da Dani, nossa ajudante. Seu tom cômico e mal-humorado de reclamar deu lugar ao orgulho, cômico e mal-humorado, naturalmente. De vez em quando ela sugere algo novo, emendando ao final: uai, vocês não queriam ter uma porção de legumes?! Foi a Dani também que modificou o preparo tornando-o eficiente e melhor.

Os legumes são um elo entre nós: eu, Lelê e Dani. Desconfio que eles dialoguem com os sons da Terra e com os nossos. Ainda não exaurimos as piadas e reclamações em torno desse simples acompanhamento.

O peso das sacolas de filé mignon, a purificação dos caldos de rabada e paleta, a montagem alucinante da costelinha, nada, nada disso se compara a nossa ira pelos legumes moles, desbotados e murchos - ou o contrário: nossa exaltação com o brócolis perfeito.

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