Nós também começamos com bem pouco. Decidimos
que teríamos uma porção agradável de legumes para servir. Não que houvesse
horda de pedidos, nós pretendíamos antecipar a demanda, melhor que isso,
incitar a demanda. No entanto, originalidade zero! Rio com a matéria da Folha de S. Paulo que relata justo isso:
o crescimento da demanda e oferta de legumes nos restaurantes. Aliás, melhor
tratarmos de hortaliças, essa bela palavra que vem da horta e contempla tudo: legumes,
verduras e ervas. Acredito que mesmo a compra de ervas, hoje em dia, seja maior
do que antes, uma coisa puxa a outra.
Começamos pelas raízes óbvias: a
batata doce, a cenoura, a mandioquinha, a batata inglesa e o “moderno” brócolis
japonês - um de cada cor, ficava bonito. Tampouco o método de preparo se
manteve, cozinhávamos no vapor, esfriávamos na água fria para interromper o
cozimento do calor residual, depois secávamos, embalávamos e congelávamos. Como
se pode ver, o excesso de verbos revela excesso de trabalho também. Era um bom
método, mas, às vezes, pequenas gotinhas de gelo se formavam nos palitos de
cenoura, nas copas dos brócolis, e o resultado era a moleza, algo inaceitável
se estamos a tratar de legumes.
Houve também o tempo das
incorporações: cabotiá, cebola, vagem, palmito, chuchu, às vezes cogumelo, às
vezes ervilha torta, dependendo da estação. A mais recente foi a troca do
pedaço de batata inglesa pela batata bolinha com casca e cortada ao meio, ficamos
assim com semiesferas, cilindros, cones, floretes...chegamos ao ponto: eu não
dou conta de comer nossa porção de legumes.
Desse conjunto, se sobressai a
cabotiá. Alguns clientes só aceitam o resto se ela estiver junto, outros
desejam tudo, menos ela. Ela segue firme, embora seu preparo e temperos sejam
personalíssimo, só ela é assada. Para levar ao cliente, pior ainda, se a colocamos
junto aos outros, na mesma frigideira, tudo sairá borrado de cabotiá – oito
bocas de fogão, às vezes ocupadas com enormes panelas com caldos, pato, cinco
quilos de rabada, e a gente avista uma frigideira enorme ocupando uma boca com
um mísero pedaço de cabotiá. Mas a gente gosta dela mesmo assim.
O que começou com um desejo meu
acabou virando uma obsessão da Dani, nossa ajudante. Seu tom cômico e mal-humorado
de reclamar deu lugar ao orgulho, cômico e mal-humorado, naturalmente. De vez
em quando ela sugere algo novo, emendando ao final: uai, vocês não queriam ter
uma porção de legumes?! Foi a Dani também que modificou o preparo tornando-o eficiente
e melhor.
Os legumes são um elo entre nós: eu,
Lelê e Dani. Desconfio que eles dialoguem com os sons da Terra e com os nossos.
Ainda não exaurimos as piadas e reclamações em torno desse simples
acompanhamento.
O peso das sacolas de filé mignon, a
purificação dos caldos de rabada e paleta, a montagem alucinante da costelinha,
nada, nada disso se compara a nossa ira pelos legumes moles, desbotados e
murchos - ou o contrário: nossa exaltação com o brócolis perfeito.

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