quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Lembranças de ruas molhadas



Nunca imaginei que viveria a mesma sensação em situações tão diversas. A primeira vez que me encantei com a luz amarela dos antigos postes de iluminação eu era apenas uma adolescente fazendo uma viagem escolar. Cheguei na cidade de Mariana, em Minas Gerais, por volta das 7 horas da noite e acabara de anoitecer por completo. Famintos, decidimos que comeríamos antes de tomar banho, porque o convento onde nos hospedava por favor, fechava cedo as portas. Desci do ônibus e o que vi se agarrou para sempre em mim - a luz amarela refletida nos paralelepípedos molhados pela chuva. Decidimostambém  que comeríamos bem perto. Havia uma pizzaria em frente ao convento, coisa barata, nos assegurou a professora. Eu tinha quinze anos e foi a primeira vez que eu comi uma pizza de pizzaria.  Estava com meu primeiro namorado, era aniversário dele e brindamos a isso.

Quase vinte anos atrás, dez anos após Mariana, eu realizava um sonho: desembarcava no aeroporto Charles de Gaulle para conhecer Paris. Um carro me esperava, era fim de tarde e achei que veria Paris ainda de dia. Não imaginei que o aeroporto ficasse tão longe de onde ficaríamos. Quando, enfim, atravessei o arco do Triunfo era noite fechada. Pelo adiantado da hora era preciso correr para não perder uma reserva para o jantar. Quando coloquei os pés em Paris vi que há pouco estiara, o chão de paralelepípedo molhado refletia as adoráveis luzes amarelas da noite de Paris. Um cavalheiro gentil abriu as portas do restaurante preto e vermelho, era aniversário do meu primeiro marido e ele escolhera Joël Robuchon.

Robuchon não era mais um. Dentre os grande chefs franceses, pode-se dizer que tenha sido o maior deles todos - se contabilizarmos as estrelas, são 32 recebidas ao redor do mundo, onde o chef foi se instalando à medida que seu sucesso se expandia. De origem humilde, viu no seminário sua única chance para estudar, e ao receber como atribuição a cozinha do lugar, conheceu sua devoção.
Desde então, ele dizia que não tinha senão um único objetivo: ser o primeiro. E parece que assim foi, encantou Salvador Dalí, Maria Callas e conseguiu algo que até agora parece insuperável: quando abriu seu próprio restaurante em Paris, Le Jasmim, no primeiro ano ele conseguiu uma estrela no guia Michelin, no segundo ano recebeu duas estrelas e no terceiro, a terceira.

Seu prato icônico, cuja receita correu o mundo inteiro, é o purê de batatas! A razão do sucesso, segundo ele, é que se trata de uma memória de infância. Aos domingos, sua a mãe o servia com frango. Claro, essa é a alegoria, a verdade é que se trata do purê mais aveludado que se tem notícia. Assisti a um vídeo dele para ver a receita. Ele começa com a seleção minuciosa das batatas, depois as cozinha com casca em água e sal, amassa manualmente, coloca a manteiga e o leite nas batatas amassadas e não as leva ao fogo novamente - e bate e bate…

Voltei a Paris recentemente com minha filha, contei a ela sobre os paralelepípedos de Mariana, sobre minha primeira vez em Paris. Certa noite, passamos em frente ao Joël Robuchon e lhe disse que jantara naquele restaurante com o pai dela. Ela deliciosamente adolescente me disse “mãe!, que restaurante brega: preto e vermelho! Vamos nos sentar nesse cafezinho ao lado onde você pode olhar paralelepípedos molhados a noite inteira”. 

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