O alimento da primeira infância é o
leite materno, devido a uma série de benefícios que nós todos já sabemos.
Mudou-se a mentalidade do século XX, quando imaginávamos que a nutrição era uma
tabela de proteínas, calorias e vitaminas, algo que nós poderíamos comprar na
farmácia, caso não quiséssemos comer. Mas há algo de inexplicável com a
alimentação. E a recomendação de que o leite da mãe poderia ser substituído
pelo da vaca, acabou.
Estivemos debatendo de maneira
artística o ato de amamentar. Um cineasta, apaixonado por comida, e uma
jornalista, que é mãe e amamentou, viraram gentilmente o leme para uma direção
que me surpreendeu. Pensei que o assunto, embora do meu interesse, fosse chato
para uma plateia eclética. Enganei-me. Percebi que os homens estavam mais
interessados no assunto do que as mães. Ouvi sobre: o amamentar e o desnutrir da
mãe – relação com a morte; o prazer de amamentar e a libido; a obrigação do
desmame partir da mãe, como retomada da posse do corpo: foram temas que transformaram
meus peitos numa ingenuidade pueril - pirei e amei.
Outra surpresa foi conhecer filmes que
tratam do tema com o misticismo latino. La
Teta Asustada é um deles. Uma lenda peruana sobre as mães violadas que
amamentam seus filhos e lhes transmitem um mal tão grande que lhes retira a
alma. Em Como Água para Chocolate é a
fome gerada pela frustação do amor que faz brotar leite num corpo que não
pariu.
O gosto do leite materno é outro bom
assunto. Hoje, sabe-se que o alto grau de glutamato o equipara ao tempero dashi, ou o que qualificamos como o
quinto sabor: o umami. Por uma
questão de seleção natural, tudo o que o leite contém é útil ao bebê, ainda que
nem tudo seja alimento seu. Recentes pesquisas mostram que alguns nutrientes
são enviados diretamente às bactérias do intestino, contribuindo para a fixação
de uma flora intestinal saudável.
Mitos e lendas urbanas estiveram
ligados à amamentação. Lembro-me de ver mulheres amamentando seus filhos
temerosas dos olhares alheios. Quando eu era criança, o olhar masculino não se
acanhava diante de um peito sendo sugado por um bebê, a mulher que se
protegesse. Mudamos, a barreira hoje é a vergonha, o decoro, a moral, o
respeito. Nem tenho interesse em perscrutar isso, me contento em ver mulheres
de peito nus e moleques satisfeitos com o leite a lhes jorrar na cara.

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