quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Peixinho da horta



Sem se locomoverem, lançando mãos apenas do essencial no planeta: água, rochas, luz e ar, fizeram a revolução da qual depende toda a vida animal do planeta. Em cada espécie, as características que fizeram delas as sobreviventes - essencialmente, as plantas nutrem a si mesmas – os vegetais são virtuosidades químicas. “O reino vegetal compreende raízes amargas, folhas picantes, refrescantes (e também amargas), flores perfumadas, frutas que dão água na boca, sementes oleaginosas, doçura, acidez, adstringência e dor prazerosa, e aroma aos milhares! ”

Tenho feito uso de algumas plantas que não são, a princípio, reconhecidas como comestíveis. São as chamadas PANCS (plantas alimentícias não convencionais). É legal, é útil, outras vezes de alto teor nutricional, mas nenhuma foi tão boa quanto o peixinho da horta, ou somente peixinho, seu nome cientifico é stachys byzantina ou lanata. Ela é idêntica a folha da sálvia, uma gigante folha de sálvia, só que muito peluda, provocante, o toque é algo como um cobertor de bebê lavado a Comfort.

Mas o gosto e a textura, na boca, não é nada bom, também não é ruim, mais ou menos como comer um pedacinho de flanela. É preciso trabalhar sobre ela e a melhor maneira de fazer isso é fritando-a depois de empaná-la. Se estamos a tratar de veganos, pode-se fazer uma cobertura tipo tempurá, sem ovos. Mas se é o caso daqueles que adoram a Deus, mas amam o capeta tocando viola atrás, então a dica é empanar classicamente: ovo, farinha e fritar em óleo bem quente. Verdade, é um belo petisco.

O nome se refere ao formato da planta, mas o gosto não é de peixe frito - um fala o outro copia. Seu gosto é suave e combina bem com a empanação e o intrigante é ver uma folha tão carnuda! Imagina-se uma folha frita e imagina-se o nada, mas não é o caso, o peixinho resiste e se mantém gostoso e verde mesmo sofrendo queimaduras em alta temperatura.

Nós e todos os seres vivos heterótrofos vivemos em fuga, ocupados em nos mantermos vivos, embora o nosso caso peça uma interpretação absurdamente ampla. Os vegetais não, são estacionários. Por isso, às vezes são perversos e produzem toxinas como a cebola, a mostarda, pimentas. Então, quando toquei o peixinho, fiquei a imaginar a vida mansa desse vegetal, ornamental por excelência, macio, perfeito para um jardim sensorial.

Não há razões de ordem prática para lavar, secar, empanar e fritar uma linda folha verde prateada. Provavelmente ela não irá superar as suas expectativas, mas certamente haverá o prazer da descoberta, do aprendizado, do amor ao presentear e surpreender a família, ou simplesmente, abstrair-se da rotina.

Nenhum comentário:

Postar um comentário