quinta-feira, 22 de março de 2018

Sabores de um mercado



Vínhamos de um quadrilátero cheio de história, hoje mudo e quase invisível. Nada indicava que aquele lugar fora uma fortificação para os cavaleiros templários durante a Idade Média e os mantiveram a salvo da jurisdição francesa - um Estado dentro de um Estado -, naquele tempo se chamava Square du Temple. Hoje, cumpre a função social de praça: vimos um bebê carregar, heróico, seu baldinho de praia repleto de neve do rigoroso inverno, o pai o estimulava a cumprir uma atividade que parecia ser a de deslocar toda a neve de uma calçada para outra. Observá-los aniquilou de vez a aura medievalística que buscávamos, desistimos.   Caminhávamos para o metrô quando a discreta plaquinha Marché Des  Enfants Rouges nos deteve.

Ela indicava a entrada do que parecia ser um desses mercados itinerantes de rua. Entramos por um corredor estreito, que ao fundo se alarga  e instala pequenos restaurantes e barracas de comida.

Andávamos a tanto tempo que perdêramos a noção das horas, mas era quase noite, então, poderíamos ficar para jantar. A Casa Libanesa foi nossa opção, sei lá por quê, mas ficamos com uma porção pequena de sopa de lentilhas e um falafel, dessa vez em pão folha, mais leve e sem molho. Enquanto comíamos o nosso, assistíamo ao dono, em 5 minutos, comer um meio quilo de hommus levado à boca pela cunha de pão folha. Uma perícia em pinçar a comida que fez a gente pensar em autenticidade.

Terminamos e fomos apreciar as barracas de peixes, conhecer o que o Atlântico deles dá de diferente do nosso. Então, finalmente, fui apresentada a um camarão tigre - espécie enorme, chega a medir 30 cm de cumprimento. Isso nem é o mais impressionante, a cor é que fisga – listras azuis marinho ou pretas pelo corpo. Esse magnífico animal é originário da costa do Pacífico ou do Índico e vive em águas profundas. Até onde sei, trazê-lo à superfície custa um arrastão impagável, e cultivá-lo requer cuidado, pois se trata de espécie invasora e carnívora.

Para finalizar uma baklava, um doce, provavelmente do Oriente Médio feito de massa filo, nozes trituradas, regado a mel, há quem diga que o doce é grego e leva pistaches, ou turco…Sei que, além de bom, nos levou a descobrir que o Des Enfants Rouge é o mais antigo mercado de Paris, existe desde 1615. O nome “Das crianças vermelhas” se refere ao modo como as crianças de um orfanato, próximo ao mercado, eram chamadas, porque usavam uniformes vermelhos.

Esse orfanato foi fundado por volta de 1500. Portanto, é possível que algum cavaleiro ao galgar aflito a subida do Marais tenha tido a visão das crianças vermelhas, é possível que alguma criança tenha tida a fantástica visão de um cavaleiro em sua armadura - uma parte da história que buscávamos escondida num lugar improvável. 

quinta-feira, 15 de março de 2018

Sei


Há muitos anos, dispensei intacta uma sopa gratinada de cebolas. O garçom, levemente insultado, abaixou-se para me confidenciar que a sopa francesa intocada foi a preferida de Marilyn Monroe. Apontando uma porta lateral, me indicou por onde a estrela entrava e onde se sentava esperando um Kennedy - Bob ou John, não sei ao certo - que vinha pelos fundos, através do Plaza de Nova York. Se é verdade, não sei. Só sei que fui julgada como quem dá um mergulho na piscina tapando o nariz com a mão.

Novamente estou a pedir a clássica sopa francesa de cebolas, mas, dessa vez, não há medo algum. Digo ao garçom que estou ali justamente pela sopa, que minha irmã me indicara. Ele diz que é mesmo famosa a sopa deles, algo divertido, anuncia que Paris é grande, mas com certeza não tem melhor na região.

Sei tudo sobre a sopa de cebolas que ainda não chegou, ela virá num Cabeça de Leão, um clássico bowl de porcelana branca. Tapando toda a boca da tigela, haverá uma grossa fatia de baguete coberta por queijo gruyère gratinado, que se romperá com um pouco de pressão da minha colher. Isso permitirá que eu veja o caldo âmbar, potente, mas quase translúcido, onde se concentram os anéis caramelizados de cebolas – essa uma operação lenta, alguns chefs franceses dizem dourar a cebola por 5 horas! – Sei que queimarei a boca, não importa quanto cuidado eu tenha. Sei que será deliciosa a colherada que trouxer o caldo, a cebola e um pedaço de pão com queijo. Sei também que a boca pequena do pote não comporta um pedaço de pão suficiente para toda a sopa, haverá caldo sem pão.

Estamos, eu e minha filha, sentadas diante de uma grande vidraça que pode ser, ao mesmo tempo, espelho e janela. Ao meu lado, esfuziante, ela me conta algum caso do seu inebriante primeiro ano fora de casa, na faculdade. É ela em carne e ossos. Mas posso escolhê-la etérea no reflexo da vidraça e misturá-la aos que descem e sobem pela calçada do restaurante. Concentro-me em suas revelações que ajudam a desanuviar temores que não são de sopas de cebolas. Ela faz o “lá fora” parecer um bom lugar de se viver. Uma visão poderosa que preciso reter, sei que não chega para aquecer um quarto vazio, mas acalenta.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Savoir faire



Não é preciso ir a França para saber que o savoir faire do francês teve o pó espanado. Que o responsável pela remoção é o jovem presidente Macron, que a França foi considerada o país do ano em 2017 pela imprensa inglesa e todos estão de acordo que Emannuel Macron é a nova liderança política da Europa. Além disso, seus frequentes embates ideológicos com o presidente americano o colocaram do outro lado.  Donald Trump representa um conservadorismo branco, armado e cheio de excessos, seu discurso no fórum de Davos foi claro: EUA em primeiro lugar! Macron, do outro lado, preferiu palavras como irmãos, integração, clima. Na prática, não sei, governantes falam e erram no mundo inteiro, mas importa sim o zeitgeist - nos movemos conforme o espírito de nosso tempo. E achei que o espírito francês está melhor.

Busquei uma comida mais limpa dessa vez, afastei-me do requinte e da tradicional cozinha francesa. Encontrei boas e ótimas coisas. O Dépôt Légal é, sem dúvida, uma delas. Só não é para almoço ou jantar especificamente, é daqueles lugares que elegemos para matar a fome “fora de hora” ou para um lauto café da manhã. Mas, claro, esse é um entendimento conservador. Para muita gente, uma granola ou smoothies podem figurar como refeição. Além disso, o local tem salada de quinoa, queijo feta e tomate. O interessante do cardápio foi estabelecer a comida pelo recipiente. Assim, os bols (cuia) vem antes da descrição do que eles contem.

Mas, sem dúvida alguma, a estrela do lugar são os doces. A torta de limão vem com descrição soberba e não decepciona; o merengue do chef é de citron vert, a tradução: limão verde - limão Tahiti. Os chefs franceses salivam pelo nosso citrino e demonstram a reverência que nós aqui dispensamos ao caríssimo Siciliano. As éclairs, similares as nossas bombas de chocolate, enfeitam a vitrine e chegam mesmo a nos colocar em dúvida sobre o quanto merecemos nessa vida. Precisava mesmo de tanta beleza para um desfrute tão fugaz? A leveza daquela massa, o caramelo salè, com o creme de chocolate amargo, a fina placa de chocolate equilibrada em dois pingos de creme de baunilha, seriam realmente precisos? Essas joias de comer são comuns aos franceses desde há muito. Nós ainda somos traídos pelo olhar do colonizado.

Embora moderno, o local é apertado, mesas e cadeiras pequenas e colocadas umas nas outras, o assunto é compartilhado. O atendimento é rápido, o preço justo. A beleza e vestimentas dos frequentadores sugeriu algo da moda entre os jovens.

Descrever a apresentação dos pratos seria cansativo e ainda assim falho. Percebi o quanto há de contraste entre o despojo do diálogo e o esmero das criações. Aliás, esse é o ponto essencial: a França começa a acariciar vegetarianos e veganos, mas parece ter entendido muito bem que esse público não está disposto a ser menos exigente - eles só não querem comer carne.