Nunca imaginei que viveria a mesma sensação em
situações tão diversas. A primeira vez que me encantei com a luz amarela dos
antigos postes de iluminação eu era apenas uma adolescente fazendo uma viagem
escolar. Cheguei na cidade de Mariana, em Minas Gerais, por volta das 7 horas
da noite e acabara de anoitecer por completo. Famintos, decidimos que
comeríamos antes de tomar banho, porque o convento onde nos hospedava por
favor, fechava cedo as portas. Desci do ônibus e o que vi se agarrou para
sempre em mim - a luz amarela refletida nos paralelepípedos molhados pela
chuva. Decidimostambém que comeríamos
bem perto. Havia uma pizzaria em frente ao convento, coisa barata, nos
assegurou a professora. Eu tinha quinze anos e foi a primeira vez que eu comi
uma pizza de pizzaria. Estava com meu
primeiro namorado, era aniversário dele e brindamos a isso.
Quase vinte anos atrás, dez anos após Mariana, eu
realizava um sonho: desembarcava no aeroporto Charles de Gaulle para conhecer
Paris. Um carro me esperava, era fim de tarde e achei que veria Paris ainda de
dia. Não imaginei que o aeroporto ficasse tão longe de onde ficaríamos. Quando,
enfim, atravessei o arco do Triunfo era noite fechada. Pelo adiantado da hora
era preciso correr para não perder uma reserva para o jantar. Quando coloquei os
pés em Paris vi que há pouco estiara, o chão de paralelepípedo molhado refletia
as adoráveis luzes amarelas da noite de Paris. Um cavalheiro gentil abriu as
portas do restaurante preto e vermelho, era aniversário do meu primeiro marido
e ele escolhera Joël Robuchon.
Robuchon não era mais um. Dentre os grande chefs
franceses, pode-se dizer que tenha sido o maior deles todos - se
contabilizarmos as estrelas, são 32 recebidas ao redor do mundo, onde o chef
foi se instalando à medida que seu sucesso se expandia. De origem humilde, viu
no seminário sua única chance para estudar, e ao receber como atribuição a
cozinha do lugar, conheceu sua devoção.
Desde então, ele dizia que não tinha senão um
único objetivo: ser o primeiro. E parece que assim foi, encantou Salvador Dalí,
Maria Callas e conseguiu algo que até agora parece insuperável: quando abriu
seu próprio restaurante em Paris, Le Jasmim, no primeiro ano ele conseguiu uma
estrela no guia Michelin, no segundo ano recebeu duas estrelas e no terceiro, a
terceira.
Seu prato icônico, cuja receita correu o mundo
inteiro, é o purê de batatas! A razão do sucesso, segundo ele, é que se trata
de uma memória de infância. Aos domingos, sua a mãe o servia com frango. Claro,
essa é a alegoria, a verdade é que se trata do purê mais aveludado que se tem
notícia. Assisti a um vídeo dele para ver a receita. Ele começa com a seleção
minuciosa das batatas, depois as cozinha com casca em água e sal, amassa
manualmente, coloca a manteiga e o leite nas batatas amassadas e não as leva ao
fogo novamente - e bate e bate…
Voltei a Paris recentemente com minha filha, contei
a ela sobre os paralelepípedos de Mariana, sobre minha primeira vez em Paris.
Certa noite, passamos em frente ao Joël Robuchon e lhe disse que jantara
naquele restaurante com o pai dela. Ela deliciosamente adolescente me disse “mãe!, que restaurante brega: preto e vermelho!
Vamos nos sentar nesse cafezinho ao lado onde você pode olhar paralelepípedos
molhados a noite inteira”.


