quinta-feira, 7 de maio de 2020

Consolo


Eita que, pela primeira vez, fiquei sem assunto para escrever porque, justamente, nada tinha relevância se comparado ao novo coronavírus. A semana pareceu a extensão daquelas Sextas-Feiras da Paixão da infância, quando não se podia correr ou cantar. O ar ficava grosso, o deslocamento pesado, chegava a doer as juntas porque era pecado, e esse é fardo.Fiquei na infância e me lembrei de quando não tinha aula e ficávamos todos em casa, montão de meninos, enlouquecendo a mãe. Mas naquele tempo ela podia tocar a gente pra fora, pra rua, para ela passar o pano no chão da casae descansar, de boca para baixo, as louças na pia para escorrer. A tampa do fogão estava abaixada, enfeitada por um pano de prato. Eu sempre sentia um enorme prazer pisar descalça no chão de vermelhão limpo e fresco, e se fazia muito calor, eu me estirava...

Às vezes, à tarde, tinha rosca com cheiro de fermento fresco e bolinha de massa dentro do copo americano cheio de água, ou então bolo, às vezes pão com Q-suco de guaraná, meu preferido. Nesses tempos, o ar era levinho, a mãe magrinha, quando não estava barriguda. Eu vi seis barrigas dela e um só vestido de grávida, feito por uma vizinha costureira: era vermelho com vivos azuis. Em semana de faxina, a mãe encerava e eu escorria o esfregão pelo chão. Depois, meu pai comprou uma enceradeira azul celeste que deixava umas ondas furta-cor pela casa. O chão ficava tão liso que dava vontade de jogar bugalho, para na última etapa da brincadeira, quando indicador e polegar fazem uma ponte, por onde quatro bugalhos devem passar, deslizar a almofadinha para longe.De vez em quando eles iam parar debaixo da geladeira com pés de porcelana branca. Essa manobra com o bugalho era uma audácia, feito um drible.

À noite, a gente jantava algum resto do almoço e, se fazia frio, minha mãe fazia sopa de macarrão com batatas em quadradinho. Naquele tempo também não tinha pimenta do reino em grão – ou nós não sabíamos que existia – e a mãe colocava a pimenta moída mesmo. Quando a colher raspava o prato, chiava e eu pensava que estava tomando sopa com terra.

Falei dessas coisas, porque elas,somadas a outras, me fazem muito bem e me mantêm centrada e feliz, ainda que seja uma alegriazinha triste, que é, aliás, minha zona sentimental de conforto.

Todos nós as temos, imagino que revisitá-las seja um passeio seguro e eficaz nesse momento.


sábado, 14 de março de 2020

Vida que segue


Numa semana de noticia tão ruim, pior não pode haver: desmatamento recorde da floresta Amazônica. Eu peço licença para falar da minha vidinha porque, de modo diferente, nós pessoas comuns não sabemos viver.

Um sol grego, daqueles que esfarelam rochas e faz plantas e gente procurarem sombra, nos recebeu à entrada da cidade de Agragás. Cidade pequena cujo comprimento pode-se observar do ponto mais alto, onde o primeiro templo fora construído. Estrategicamente escolhida, a cidade se instalou em um local absolutamente protegido pela natureza – rodeada de mar e costões rochosos. Nosso excelente guia,munido de sua sombrinha, tinha toque para iniciar toda e qualquer explicação, ele dizia: “da questa parte”.

Ele se posicionou embaixo de uma oliveira magnífica e, da questa parte, nos disse que aquela espécie fora plantada sob os auspícios de rei, por volta do ano 1.000! Achei ter entendido errado, afinal, não se pode confiar cegamente num ouvido que está a decifrar outro idioma, mas pela expressão geral da plateia, percebi que era isso mesmo. Quis me abraçar a ela e ouvir o que essa senhora milenar tem para nos dizer. Saber do vento que sopra da África até a Itália e, para minha própria segurança, descobrir: quanta vaidade já tombou a seus pés.

Ela não estava sozinha em sua imensa sabedoria. A cidade grega, em solo siciliano, tinha um olival. Mas não só.Quando vertemos vista aos paredões de pedra, despencavam pés de alcaparras que se sustentavam como podiam – com pouca terra, muita pedra e sol – mas acho que é assim que elas gostam de viver. Os templos foram construídos ao longo e ao lado do que foi a avenida principal, calçada e ralamente murada. E enfileirada, de ambos os lados, por pés de amêndoas, mandorla, para os italianos. A questa parte, o guia se orgulhou de tão bela árvore, que exibe uma das mais belas floradas da natureza e é abundante por toda Agrigento. Hoje Agrigento, mas já foi, desde Agragás, tantos nomes diferentes, que é difícil imaginar uma outra cidade mais invadida que essa.

E em meio a tudo isso, muitos pés de figos-da-Índia, que não são naturais da Índia, mas do México.Imagino que, como fomos tomados por indianos no descobrimento, os frutos também devem ter sido enganadores como nós. Por lá, se exibiam em profusão de cores: amarelos, vermelhos, roxos, verdes, belíssimos.

O Vale do Templos em Agrigento era o local de brincadeiras e piqueniques quando nosso guia era jovem, assim nos disse. Noivas vinham fazer fotos em poses de Atenas e ninguém se importava com aquilo tudo. Hoje, reconhecido como patrimônio histórico, está a fazer a fortuna da cidade com o turismo e ninguém pode mais tocar numa pedrinha, tá certo. Mas nosso guia estava a invejar as beldades de Dolce&Gabbana que flanaram, quase sem tocar o chão, por semideusas que são, os templos de suas brincadeiras.

Em tempo: conheçam Sérgio Leitão, do Instituto Escolha, para saber mais sobre a Amazônia e vejam noYoutube o desfile Dolce&Gabbana 2019 no Vale dos Templos.  

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Antes da meia noite



La Luna sul Colosseo é um passeio de pequeno grupo, guiado pelo interior dessa monumental construção romana. Queria escapar das filas exasperantes para visitação e descobri essa visita noturna. É relativamente recente a iluminação cinematográfica por toda a obra e, penso que, se sob o sol já são tocantes as galerias, à noite experimentamos uma ponta do medo que invadiam escravos e bichos confinados a esperar o momento fatal ao som estridente da turba que frequentava as arquibancadas. Um guia competente nos contou um pouco de história: toda aquela área era a piscina do imperador Nero, Nerone, para os italianos. Os buracos simétricos na construção de mármore travertino (Roma é feita de mármore travertino, tem até sarjeta de mármore) era lugar de metais valiosos que ao longo dos séculos lhe foram saqueados.

Durante a visita, já imaginava isso, surgiu prateada, em contraste com o amarelo romano, uma lua crescente, muito prestes a ser cheia. Na arena lutavam fantasmagoricamente gladiadores e bichos. Naquele momento, a composição toda era tão bonita que o Coliseu não pareceu ser mais real que a apresentação.

Saímos, eu e meu marido, tarde do passeio. Tínhamos jantado muito cedo e resolvemos fazer um reforcinho com um queijo e vinho do supermercado ao lado da gente. Sirigaita, escolhi tudo e passamos a mão pelo gargalo da garrafa, momento em que fomos interpelados pelo atendente: não podíamos mais comprar vinho. Quase ofendidos perguntamos o porquê. Estaria eu, com meus brilhantes 46 anos, e meu marido, nos irradiantes 55, com cara de menos de 18? Não, nada disso.Em toda a Itália está vigendo uma lei que proíbe a venda de qualquer bebida alcoólica após as 22 horas.

Sem pestanejar, corremos para uma pequena taverna para um pedaço de pizza e uma taça de vinho. Porta na cara. Nem nos restaurantes pode-se vender. Se o vinho acaba depois das 22h., é chupar o dedo. O resultado disso é que os restaurantes fecham muito cedo, o povo bebe menos e parece que há menos confusão pelas ruas. De nossa parte, no dia seguinte, fizemos um estoquezinho e bebemos depois das 10, ainda mais satisfeitos, pelo, também, prazer da ilicitude.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O carteiro e a comida



Quando escrutamos um cardápio italiano, tradicional, é normal a classificação das opções em: entrada, primeiro prato, segundo prato, complementos ou contornos e doces. Para mim e, penso eu, para a maioria das pessoas, essa é uma classificação meio inútil, que nos dá a impressão de que os “primeiros pratos” estão a meio caminho da entrada e do prato de “verdade” - bobagem.

Nem me lembrava disso quando, no sul da Itália, na Sicília, vi casais a minha volta pedirem um prato e daí a pouco pedirem outro prato. E comecei a reparar e achar todo mundo guloso. Aponto:“olha lá, ela comeu aquele peixe, agora pediu a massa! Não acredito, comeram a lagosta, agora pediram um filé!” Até que, ao fazer meu pedido, o garçom anota um, espera um minuto e então pergunta: E il secondo piato, signora? Não peço, mas me faz feliz.

Hoje em dia viajamos já sabendo que aquele papo de “como é bom descobrir outras culturas...” perdeu a relevância. Estamos imersos num cybermundo que a cada instante nos clona. Por isso, descobrir hábitos diferentes é surpreendente. A cultura alimentar se mostra, por excelência, nos ingredientes, mas a maneira como distribuímos nossas refeições também é cultural. É revelador os italianos distribuírem a refeição em dois ou mais pratos. A intenção não é engordar, mas celebrar o ato de comer, reduzindo o ritmo da refeição.

Nós, brasileiros, temos um ótimo regulamento. Tratamos bem o café da manhã, tanto que o caipira paulista, nós, chamava esse pequeno almoço de café-de-duas-mãos; depois almoço e jantar bem assentados, podendo haver uma ceia noturna, para os que sabidamente jantam cedo. O europeu nunca curtiu bem o café da manhã, nosso hábito os estranhava. Deve ser por isso que o café da manhã na Itália é doce, só doce. Constitui-se de uma bebida quente doce, café ou cappuccino, com um corneto (croissant) doce - o recheado com frutas vermelhas é excelente.

Mas a Sicília, a adorável ilha, com interferência grega ainda bem viva, é um ponto fora da curva. Eles são aguerridos na defesa de sua cultura e brigam, como bons italianos, em defesa própria. Assisti a um garçom impedir uma cliente de pedir um salmão, que embora no cardápio, não é de lá. Por outro lado, os condutores de Vespas passavam livres sem capacetes, ignorados pela polícia.

Acho que é isso, todos nós erramos e acertamos, mas os sicilianos, por ora, estão preferindo errar e acertar por conta própria. 

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Pés na terra



Sempre quisemos servir peixe fresco no Azul e nunca conseguimos. Alguns clientes perguntam se os peixes do menu são pescados ou de cativeiro, e nós respondemos, meio frustrados, que nossos peixes são de cativeiro, comprados de uma empresa de médio porte, aliás, ótima, que garante tempo e qualidade. Nós bem sabemos com o que sonham esses clientes! Nós dormimos juntos e sonhamos o mesmo sonho. Claro, amaríamos receber pela manhã um balaio por onde vazasse água salgada, teríamos no fundo do restaurante, um tanque rústico onde o velho lobo do mar despejaria peixes e crustáceos quase vivos, poder-se-ia ouvir o tectec das conchas nos seus estertores.
E como nós os prepararíamos?

Começaria pela decoração.Da janela de nossa cozinha, aceitaríamos ver apenas verde, branco e várias tonalidades de azuis, ao invés de dois botijões P43 de gás. Depois, faríamos o peixe assado, acompanhado por legumes – ensinamento da cozinheira que preparou o melhor peixe que já comi, em Paraty. Depois a iluminação seria só de velas, porque a luz bruxuleante se mostrou a melhor para iluminar uma travessa de Barracuda e tubérculos. E todo mundo teria que comer a cabeça do peixe, porque é assim que se faz. E tanto nós, como vós teríamos tempo, do tipo que só escorre durante as férias.

Então, caímos todos da cama.

Mas a gente se vira com o que tem. Enfim, conseguimos um comerciante de peixes que jura que entregará para nós, toda sexta-feira, peixes frescos, normalmente tilápia (sempre ela) e tambaqui.Ele também acredita que os peixes terão um padrão aceitável de peso. E só. A preparação será a que melhor atende ao paladar: assado na folha da bananeira. Isso sim será desafiante. Embora trabalhoso, esse invólucro se mostrou o melhor, de longe. Parece minucioso falar em aroma ou capacidade de vedação da folha da bananeira, quando temos, por exemplo, papel alumínio, ou papel manteiga. Pois é, não é. Ela é insubstituível.

Depois de tantos anos, vamos tentar algo novo que, acreditamos, seja bom, porque mais justo e natural sem perdermos sabor ou prazer.

Tomara que dê certo, e que possamos nos encontrar na mesa, que é o lugar das coisas concretas.     

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

O Terreiro do meu pai




Calculamos o tempo de modo a chegar em nosso destino pela hora do almoço. Almoço de 25 de dezembro, almoço de Natal. Próximos eram: partida e chegada. Mas, entre elas, uma estrada difícil. Começamos saindo de Juazeiro do Norte, passando por Barbalha, Missão Velha, depois Barro, e o motorista da Van, Edimar, nos informa que é a cidade da Silvia Designer. Meu pai, comendo banana, não entendeu a informação e pergunta: quem? Eu falo em alto e bom som, e ele: “Ah! Conheço muito”. Eu penso: Jesus, de onde ele conhece a mulher-gato, que estampa as fachadas das lojas dessa nordestina arretada?  Quantas vezes, chegando na rodoviária de São Paulo, passando em frente a uma de suas lojas, pensei: quanta autoestima...

Horas depois, quase passamos reto pela casa de meu tio. Mas esse, mais atento que nós, gritou se abanando todo e nos fez chegar e viver toda aquela história entre pessoas que se amam e passam uma vida sem se ver. Adentramos à cozinha e fomos avisados: “nós todos já almoçamos, o serviço no roçado começou às 5, das 11 horas ninguém escapa sem comer”. Os pratos duralex empilhados, os talheres em cima da mesa, com toalha plástica, e os bancos de madeira clara foram um convite irresistível à verdade da vida.

Uma bacia com jerimum só cozido, bem firme e doce, era passada de mão em mão para nós; melão picado e doce devia ser misturado ao arroz - Michele Obama aprovaria -; feijão de corda, caldo bem ralo com coentro picado; o mugunzá e bode cozido. Fiquei tão feliz que mesmo se a comida estivesse ruim, eu adoraria. Que felicidade testemunhar uma família se alimentando na tradição do seu terreno. Elogiei muito o sabor de tudo, à guisa de alívio, porque temi ser recebida com frango frito ou pizza ou qualquer coisa industrializada.

Meu tio cria bodes e nas ocasiões especiais mata um. Eu já sabia que ele o faria. Minha tia Severina, quem preparou, estava com cara de: “vocês vão gostar”. Mas estava além disso, foi certamente uma das melhores carnes que já provei. Ela quis passar o mérito ao meu tio: “ Só Vicente sabe escolher o animal certo e o peso limite para dar essa carne aí, menina”.
A carne soltando do osso - delir, é o verbo. Mas quem se importa. O bode foi feito em panela de barro, no fogão à lenha, que veio do quintal e por lá foi quarada e rachada pelo sol Nordestino. 

Portanto, comemos algo que, provavelmente, jamais comeremos.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Sertão



Lembro-me bem qual foi o primeiro contato que tive com o sol do sertão. A van estacionou para alguém fazer xixi em um posto que dava calafrio, tamanho desconsolo. Pensei ouvir ventiladores enferrujados moendo calor e o brotar do suor. Pensei ter visto pernas gordas embaixo de um vestido fino de algodão que, à custa do repouso, sacrificavam um velho banquinho de criança. O som dos carros passando, por uma rodovia que ainda guarda bons intervalos, era uma trilha sonora adequada. Ali era Icó, a primeira cidade que paramos depois de sairmos da região do Cariri. Eu tinha ainda em mente o gosto do Serigado e dos croquetes úmidos de bacalhau da ceia de Natal em Juazeiro do Norte, e me preparava para encarar tão e somente alguma coisa ressequida de sol, porque de outra forma não poderia ser...

Serigado é um peixe de água salgada que tem outros nomes, mas, para nós aqui, o mais conhecido é a garoupa. Ele é também conhecido por Serigado-branco, Serigado-garoupa, Serigado-preto, Serigado-badejo, Serigado-Vermelho, Serigado-Tapuã – brasilidades que levam à boca praticamente o mesmo peixe, tenro, em posta, a carne clara, pouca gordura. No Nordeste, a preferência é por afogá-lo no molho vermelho, cebolas inteiras de cabeças pequenas com as pétalas transparentes. E claro, pirão, sempre. Às vezes fazem-no com as crostas de castanhas, que já vão dando um certo ar retrô.

O peixe estava bom, mas os croquetes, excelentes. Fiquei a pensar em croquetes e bolinhos e procurei saber se haveria uma diferença exata entre eles. A gente sente a diferença, mas nos dias atuais, com a quebra de tantas barreiras, fica difícil dizer - nem o Houaiss ajudou: para ele, croquete é um tipo de bolinho. Gosto da tentativa de dizer que bolinhos têm massa e recheio, enquanto os croquetes são um todo. Qualquer que seja a proteína estará misturada ao carboidrato ou ao ingrediente que lhe dará sustentação. Popularmente, a diferença está na forma: se for alongada, nós chamaremos de croquete, cuja palavra vem do alemão e foi inventado na Holanda e é sucesso no mundo inteiro. E são um clássico do restaurante Sirigado do Pedro, em Juazeiro do Norte.

Por sorte, levamos conosco banana, bolacha e água, porque no caminho encontramos fubalito e rapadura - nada contra, mas o dia estava só começando.