quinta-feira, 19 de abril de 2018

Vasto mundo



Estava tudo combinado de modo simples e eficaz. Por volta das 11h. da manhã, caminharíamos por dois quarteirões a fim de experimentar a salada de cascas e restos, servida no restaurante natural Apfel. Há algum tempo, minha filha insiste que eu a prove e dê, digamos, um parecer mais técnico sobre a tal salada que ela adora. E assim foi. Chegamos na hora da abertura, escolhemos a mesa, pedimos suco e a única possibilidade de cerveja da casa foi aceita pelo meu marido, evitando assim o stress das escolhas. O local estava um pouco quente, mas nos acomodamos num corredor de ar e luz satisfatórios. Dois foram para a pista, outro fica para vigiar as coisas. E o que vemos é muito agradável.

O Apfel é um restaurante natural, orgânico mesmo, que tem a virtude de se virar com o que lhe é entregue pelos fornecedores orgânicos. Por isso, o cardápio é um tanto volúvel. A relação entre a comida e a proposta está evidente - e poucas vezes vi sabor e apresentação tão bons num circuito de pratos que não levam nada de industrializado nem proteína animal. Fazer uma comida maravilhosa, sem carne, é fácil, mas sem qualquer insumo animal, é osso.

A salada de cascas estava numa pequena bacia com a plaquinha indicando do que se tratava: cascas de legumes assadas e crocantes, acrescentadas aos restos da salada do dia anterior. Seria ótima ainda que não se tratasse de uma indulgência. Mas todos os pratos estavam muito bons, além das sobremesas delicadas, como o sagu no chá de hibisco.

Mas a vida é um cipoal e tinha aquele outro lugar, última casa da rua tal, cujo dono é aquele sobre o qual já ouvimos falar. Então a possibilidade de, enfim, conhecermos o Piselli- um restaurante italiano em São Paulo. A hostess nos recebeu, indicou a mesa, cuja cadeira foi puxada por um garçom. E, no lapso de tempo, entre aterrissar no conforto da cadeira e tocar o linho do guardanapo dobrado, eu medi a extensão das minhas frágeis convicções. E assim foi. Escolhi às pressas um filé baixo coberto por presunto de Parma, acompanhado por nhoque na manteiga de sálvia. Mesmo agora, o sabor do prato é mais vivo que o teclar do meu computador.

Dormi mal nessa noite, me senti desconfortável e instada a entender o mecanismo que deflagra toda essa operação que nos coopta e submete por toda a vida.

Será assim?