Durante a minha infância, morei em
várias casas, todas úmidas e inacabadas. Lembro-me do lodo no chão, nas paredes
e de água empossada na época das chuvas. Lembro-me também de uma sombrinha que
minha mãe guardava encostada no tanque e, ou porque aconteceram várias vezes,
ou porque a única vez foi por demais marcante, sempre que eu abria essa
sombrinha havia uma perereca, alojada nas dobras do tecido, que pulava em mim.
Pois estou a observar as águas: a da
piscina de borda infinita, cujo revestimento caprichosamente nos remete ao mar
– quase ao alcance das mãos de quem se debruçar sobre a beirada. Adiante, o céu
escuro gesta chuvas que nascem, morrem e ressuscitam o dia todo. O espaço
parece sustentar um varão por onde uma cortina d´água é puxada de um lado ao
outro. Mal piso o deck e alguém se dispõe a arrumar uma esteira, forrar o
colchão, dobrar a toalha que gentilmente apoiará minha nuca para que eu consiga
ler sem me cansar. Um enorme guarda-sol começa a ser aberto numa harmonia de varas
e cordões. Ao lado, eu espero e, de repente, um sapo branco sai das pregas do
tecido e pula em mim.
Assusto-me, rio, todos riem, mas me
dá vontade de chorar pela emoção da memória que o animal desperta. Tive de me
conter, ou o rapaz ficaria apavorado. Em que idioma, senão no meu, eu poderia
explicar algo assim? Teria de lhe pagar uma Corona no bar da piscina para, com
tempo e disposição, apresentar-lhe meu vívido passado que sugere: sofrimento
não é tristeza.
O sapo foge, mimetiza-se na areia que
é da cor do guarda-sol. Imagino que ele tenha consciência de si próprio.
Sento-me no bar de onde posso observá-lo, não quero perdê-lo de vista. Solto o
bronzeado, pego o cardápio, acho que há fome para uma salada. Escolho a Big Salad, que nem é tão grande, mas é
adorável. Vários legumes crus vêm
cortados em tiras finas como espaguete: abacate, quinoa e lentilhas germinadas
e brócolis crus também. Não vejo rúcula por aqui, em compensação a alface é a
romana. Além disso, grãos de feijão. Quem quiser arriscar não se arrependerá.
Enquanto despejo o molho vinagrete, o
sapo não mais está lá. Enquanto penso que o nome Big deveria ser trocado por Total Salad, porque é uma refeição perfeitamente
balanceada, o sapo já se escondeu em algum outro branco mais distante. Enquanto
me ajeito no sofá e admiro a cerâmica em que veio a salada, meu sapo deve estar
a procurar um canto seguro, mais úmido.
O curioso é que não ouvi coaxares nem
antes nem depois de trombar com ele. Questionei meu marido sobre sapos e grilos
e a resposta dele também foi negativa. Todos os dias eu comi a Big Salad entre o guarda-sol, a areia,
meu passado e uma ausência.

