sábado, 30 de setembro de 2017

Somos todas desdobráveis


Não me lembro se foi uma necessidade especial ou uma lufada de independência que fez minha mãe procurar emprego - e encontrá-lo. Só sei que foi um desastre. Depois de uma negociação tensa entre meu pai e ela, combinaram que ela honraria a palavra empenhada, voltaria antes do fim do dia e não retornaria mais ao trabalho.

Imagino que na primeira hora daquele dia seu pensamento tenha sido todo do meu pai, mas a gente sabe como é, o trabalho trai nossas preocupações. E ela se viu abrigada pela simplicidade da vassoura que varria, do rodo que secava, do pano que deixava um rastro de limpeza em meio a poeira. Como não se deixar purificar pela limpeza que ela própria produzia? Na ação, nenhuma novidade: era a mesma da casa dela. Mas o efeito era outro, parecia que cada peça liberta da sujeira lhe agradecia com mesuras - ela sempre desconfiara da falta de educação de seu mobiliário miserável. Haviam as pratas, o brilho no chão, a laca dos móveis, mais parecia um palco. Tinha também o silêncio, ela não se lembrava de ter passado tanto tempo longe dos filhos, que individualmente eram bonzinhos, mas juntos produziam incêndios em série saídos das fricções verbais e físicas naturais da infância. Ela só poderia estar louca, porque se sentia em férias e descansada naquela casa, cuja faxina semanal estava a seu cargo. Deu a hora do almoço, ela se ajeitou num canto, a comida era boa e à vontade. E mentalmente repetiu a frase que a fez célebre: “Qualquer comida é boa se não fui eu que fiz”.

Sei que vi naquele dia o sol se pôr com grande amargura. Os últimos raios se agarraram a custo na borda do mundo, porque sabiam que enquanto uma unha de claridade se mostrasse minha mãe não estaria atrasada. Não adiantou porque o sol rolou levando seus tentáculos inconformados, e quando minha mãe chegou em casa era noite fechada e, como eu já disse, foi um desastre.

Passaram-se quase trinta anos para que minha mãe tivesse o desvario de novamente trabalhar mediante paga. Achei que estávamos fazendo um favor a ela, dei-lhe uma tarefa esperando o cumprimento da metade, ela me pediu duas daquela.

Sei que hoje ela dá e recebe como qualquer outro funcionário do restaurante. Sem deixar a mansidão de mãe, cativa meu pensamento na elucidação do mistério – onde esteve essa mulher por tanto tempo escondida de mim?

sábado, 23 de setembro de 2017

Tempos de fins



Naquele sábado à tarde, eu precisava passar muito rápido pela fila do supermercado. Analisei rápido os fatores agravantes e os atenuantes dos compradores em fila, encontrei o caixa que julguei ser o melhor e fui. Em vão, porque o caixa travou. Mas antes que meu humor se amesquinhasse, começou a se desenrolar atrás de mim uma deliciosa cena doméstica:
- Deveríamos ter vindo mais cedo, vamos perder tempo desnecessariamente.
- Sim, você já disse isso e eu concordo com você, mas eu não consegui sair mais cedo do trabalho, por mais que tivesse vontade...
- Quanto custava aquele espumante?
- Estava incrivelmente barato, acho que a Chandon demi-sec rosè estava só R$ 38,00. E pensar que é a nossa bebida preferida. Acho que fui pessimista quanto aos motivos para brindar a vida, poderíamos ao menos ter garantido uns 10 brindes...
- Olha só o preço que vamos pagar aqui! Se você tivesse me ouvido! Não vou fazer as contas porque isso vai me irritar muito!
- Talvez eu possa amenizar sua raiva, nem o lucro daquele dia, nem o prejuízo de hoje lhes dizem respeito exclusivamente. Naquele dia nós dividiríamos a conta, hoje faremos o mesmo.
- O que está me deixando muito nervoso é esse seu convidado novo, você teve a gentiliza de perguntar o que ele gosta de beber? Odeio quando vocês decidem sair para comprar bebida no posto, isso é de muito mal gosto.
- Esse convidado novo é o namorado da (...) e com um pouco de imaginação a gente pode acertar. Olha só, ela não bebe nada, o rapaz é bem simples. Temos em casa vodka, Gin e Whisky. E, além dos espumantes, estamos levando esse fardinho de cerveja aqui, acho difícil errar com ele.
- Você já pensou que pode ser bem chato as pessoas escolherem algo que não combina com as comidas que preparei? Ai como eu gostaria que as pessoas entendessem o que é morder algo que libera a essência encapsulada, tratar o líquido como a mansa corredeira que embala o barco até a queda final...
- Seus jantares são memoráveis, mas nossos convidados vão até nosso apê porque gostam de você mais do que da comida, embora ela seja realmente incrível.
-Acho que você deveria trocar essa cerveja, concordo que o rapaz tenha mesmo “cara de cerveja”, mas levar uma assim, tão comercial, ele pode achar ofensivo.
- Troco, claro, aliás, vou lá pegar aquela artesanal, eu até que gosto de uma cervejinha sábado à tarde com aqueles salgadinhos vagabundos.
- Tô pensando em viajar, o que você acha? Nossos dias em Buenos Aires foram realmente inesquecíveis.
- Foram sim...
- O que você acha?
- Também pensei em viajar, mas com meus pais...
- (...)
- Como você sabe, nosso tempo está se esgotando...  

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Etto - a busca da possibilidade



A semana começou agradável porque ao final dela eu iria encontrar minha filha para matar a saudade e me divertir com o manancial de juventude que é um filho de 18 anos. Recebo, durante toda a semana, WhatsApp e emojis de alegrias e comidas - segue a regra de que todo universitário é um morto de fome. Ela me lembra daquele restaurante badalado que estamos querendo conhecer. Com a devida antecedência, na quinta-feira, passo a mão no telefone e peço uma reserva para o sábado à noite, três pessoas: “lotado” é a resposta que ouço do outro lado da linha. Penso imediatamente no Rio de Janeiro e o apavorante fechamento de inúmeros restaurantes. Estaríamos a habitar países diferentes?

Mas tudo bem, eu gosto da espera, fica o Nino Cucina para outro dia. O restaurante Etto era nossa outra opção. Inaugurado há pouco, está agradando, seja pelo que está apresentando, seja pelo que os sócios já apresentaram em outra casa, o Tre Bicchieri. Para os que conhecem esse, todo o cuidado é pouco, porque a comparação pode ser decepcionante - aqui eles buscam a perfeição, lá a possibilidade.

O Etto é aconchegante, o serviço é bom, o som legal, o barulho vibrante e a comida que, se autoproclama reconfortante, agrada. O restaurante é também uma salumeria – eles produzem diversos embutidos saborosos e mais saudáveis, que podem ser pedidos como entradas, tábuas de frios e queijos e pão - o que funciona muito bem para mesas que compartilham a entrada ou que simplesmente queiram ficar só nos petiscos. Mas além disso, os embutidos estão presentes também nos pratos principais. E essa é uma decisão acertada quando se quer adicionar sabor aos pratos. Um pedacinho de linguiça, ou panceta, ou mortadela fisgam o paladar e exigem nossa atenção.

Outra “trapaça” bastante válida são os queijos fundidos em panelas de ferro, misturados aos molhos, formando misturas intensas, que em cima de fatias de pão italiano nos fazem duvidar dos invencionismos e glorificar o simples. Durante o tempo em que estivemos lá, um dos pratos mais pedidos foi justamente a panela de ferro com ovos de gemas moles, queijo, molho de tomate e pão.

Etto é a sigla para 100 gramas em italiano, em português a palavra é hectograma. Parece-me que a ideia é sugerir o pouco, o suficiente, o despojado, o barato...um Etto indica pouco peso e pouco valor.

Não é o caso de dizer que seja barato, mas entra para o rol das boas e justas medidas, ou melhor, indicações. 

sábado, 2 de setembro de 2017

Indianas mangas



A frase saiu crivada de indignação: uma mulher sentenciava injustamente à morte uma mangueira: “mando cortar a árvore, nem as frutas eu como, as crianças pegam as mangas verdes no pé, cutucam até arrancar a fruta verdolenga”. Arrisquei uma pergunta, que foi recebida como cinismo: “mas eles pegam a fruta para comer ou jogar fora?” Claro, era para comer, mas um comer que não se concorda.

Pena. Não houvesse antipatia, gostaria de lhe dizer que manga verde é comida, se harmonize ou não com isso. E que as crianças, as poucas que ainda se aventuram nos pés de manga, deveriam ser incentivadas a isso. E que, tampouco, há certo ou errado quanto ao ponto da fruta – as preferências vão desde caldo escorrendo pelos cotovelos, pedaços tenros partidos na faca e, porque não, até as totalmente verdes. É só questão de gosto.

Se me recordo bem, as mangas verdes boas de se comer são aquelas que, em algum ponto, demonstram uma queda para o amarelo. Na verdade, não se vê o amarelo, ele é apenas adivinhado. Lembro-me que, o sal e a faquinha de lâmina gasta e enferrujada, estavam sempre ao alcance da gente. Mas o que ninguém esquece é o prazer da sombra compartilhada da mangueira. Arrancar uma árvore assim é mexer num santuário infantil, num ecossistema de quintal – a vegetação densa é peneira de trama fina que coa o sol tão lentamente que ele esfria antes de atingir o solo. Embaixo dela, a noite chega antes e se recolhe por último. Sua tepidez abriga uma serie de bichinhos e uma discreta vegetação.

Não é crível que a mangueira não seja brasileira, nem que venha de tão longe: da Índia. Com os primeiros portugueses vieram as primeiras mudas, que se adaptaram extraordinariamente bem. Antropologicamente falando, manga verde por aqui é coisa de moleque de vila. Elas raramente atravessavam o umbral das portas de nossas cozinhas. 

Muito diferente no país de origem, onde além de fruto doce, suculento e sensual são também tempero, salada, comida.

Uma das formas mais famosas para se apreciar uma manga verde é o chutney de manga verde. Mas nesse caso a manga perfeita é aquela que, de tão verde, ainda não tem caroço firme.

Nina Horta recomenda espetar a fruta com uma faca, que deverá penetrá-la sem resistência – assim, nunca comi. Mas a manga verde vai muito bem como salada ou acompanhamento para qualquer tipo de carne, refogada com cebola ou alho. Independentemente da preparação culinária, o que se quer dela é o azedo, esse sabor maduro, provocador que não se define nem ao sal nem ao doce.


É curioso que a manga nasça instigante e logo se transforme num bebê de doçura.