Ele chegou todo sujo, uma sujidade de
roça, em altos saltos de lama; a calça jeans mais marrom que índigo; a camisa, sem
cor; o cabelo ralo, branco e duro de pó. Trazia um cheiro bom de gente e campo
que invadiu a cozinha que até aquele momento era só comida, fuligem e o café,
que eu, em silêncio, tomava na varanda. Não era preciso especular, de olhos
fechados eu saberia que estava na roça. Ele aportou no umbral baixo e forte da
porta, trocou as botinas sujas, ao invés de raspar os pés na ponta da enxada
fincada no terreiro, e entrou. Perguntou-me com a naturalidade de parente se o
café ainda prestava, acenei que sim e lhe passei o copo.
Trazia dentro de um saco plástico o
nosso jantar: pepino caipira, tomate e couve. Dali a pouco a dona da casa
chegou, o silêncio foi embora, a fumaça da chaminé do fogão à lenha se
avolumou, enormes canudos cinzas bailavam no ar, denunciando que havia um
jantar a caminho. Nos aconchegamos no pequeno cômodo, quase não cabia tanto
assunto – nossas apresentações se prolongaram noite a dentro. A mulher cheia de
bijuteria barata nos dedos e nas orelhas, mãos ao alto picou a couve, retirou
as pontas do pepino, descascou, jogou fora as sementes e picou ainda o tomate
em rodelas grossas, do jeito que eu não gosto. Arroz, feijão, polenta e uma
panela com água na chapa do fogão.
Jantamos o quanto quisemos, a mulher
se levantou, pegou uma panela, colocou leite e açúcar, tomou o lugar da panela
com água, sentou-se de costas para o fogão como quem não tem um leite para
vigiar. Percebendo a minha aflição, riu-se e me falou: você não sabe que leite
no fogão à lenha não derrama? Então, eu sabia e esqueci.
Tarde da noite, ocupo meu lugar num
beliche, afasto o sono para me lembrar daqueles que foram meus melhores dias da
infância. Meu pai arrumara um serviço numa roça e passei com ele minhas férias
escolares. Foi lá que descobri que leite ferve manso e não derrama no fogão à
lenha. Eu tinha apenas oito anos, fiz uma boa amizade com o filho mais velho do
caseiro que tinha onze anos. Juntos explorávamos toda a propriedade, deitávamos
no cocho d’água, vacinávamos o gado, levávamos o leite, que viraria doce na
minha e na casa dele.
Um dia, ele me chamou no pasto para
me mostrar um cavalo que fazia cobertura numa égua. Cheio de segurança,
perguntou-me se eu sabia o que era aquilo. Senti que o chão se tornar movediço
e rezei para conseguir uma saída que não me fizesse perder o amigo. Olhei
direto para ele e foi minha vez de perguntar: Você é meu amigo de verdade? Ele
se desculpou e eu jamais esqueci a nobreza do caráter dele.
Não me admira que eu tenha me
esquecido que leite ferve, mas não derrama no fogão à lenha.


