Circulou pela Internet
uma foto que, de um lado, estava a floresta Amazônica e, do outro, um
descampado arado, típico da agricultura em larga escala. As duas imagens, uma
de um verde profundo a outra ocre, ocupam todo o quadro, não há margem ou borda
e estão divididas ao meio como por régua. Sobre e sob a foto inúmeros
comentários, mas eu jamais imaginei alguém comentar que do lado ocre tem-se trabalhadores,
e do lado verde, meia dúzia de índios vagabundos sustentados por nós – o
estupor não passa. Precisamos com amor e paciência espalhar por aí que aquele
verde “obsoleto” onde moram meia dúzia de índios é uma riqueza tão grande que
pode salvar o planeta. E não esquecer de mencionar: estamos falando de
dinheiro.
O Brasil é um
dos países chamados de mega diversos, por sua flora e fauna, pela quantidade de
idiomas falados (274 línguas!), pelo seu povo (305 etnias!). O corpo
diplomático brasileiro é, ou ao menos era, cortejado porque o mundo quer ouvir
o Brasil sobre isso: o que faremos para manter a riqueza que ninguém mais tem.
Estima-se que nós não conhecemos nem 10% de nossas florestas. Imagino que ela
contenha a resposta para muitos males que vivemos, mas é preciso falar baixo porque
ela é tímida. Uma história engraçada ouvi entre dois professores de francês. O
nativo, querendo humilhar o brasileiro, acusava-o de não pegar uma cestinha e
sair ao bosque atrás de cogumelos e frutas silvestres, o brasileiro, debochado,
lascou: mon chér, nossos “bosques”
tem é onça, você só conhece esquilo.
No entanto, o
que já conhecemos justifica a preservação, temos um imenso ativo nas mãos! A
busca por novos princípios ativos nos faz chefe de qualquer cúpula, porque esses
ativos estão nas florestas. A biomimética, área da Ciência que estuda os
princípios criativos e estratégias da Natureza, visando a solução dos problemas
atuais da humanidade, só pode se desenvolver na floresta.
Falar só não
adianta, temos números atraentes. No Alto Rio Negro, populações tradicionais
cultivam mais de 100 tipos diferentes de mandioca, 56 de batata-doce, 78
pimentas, 17 de algodão. Isso interessa? Muito. A Irlanda quase morreu de fome
porque seu tipo de batata foi atacado por um fungo no século XIX. O caso é
famoso e exemplar: a agrobiodiversidade é o nome para segurança alimentar.
Outro: a “Terra Preta de Índio” é um mistério que deveríamos conhecer. Faixas
pretas, daquele que é o solo mais fértil do mundo, é obra da era pré-colombiana
até hoje do índio.
Não é novidade
considerarmos o índio um entrave ao desenvolvimento. Nos anos 70, eles
“impediam” a integração da Amazônia. Mas um observador normal pode ver que eles
conseguem viver em equilíbrio, a existência deles não representa o desgaste do seu
meio.
Acho que para
nossa salvação precisaremos das florestas de pé e vivos os seus intérpretes. A
mineração é safra de colheita única, vão-se embora o fruto, a planta e a terra.
E dinheiro na
mão é vendaval.