Fui convidada para ver Dragões no final da semana passada, ainda
bem, não os vi. Eles foram só o pretexto para o desenvolvimento de um
espetáculo encantador apresentado pela companhia vocal Enrico Nery. O teatro
lírico de Nery situou-se na Idade Média e buscou, na antiguidade, seu argumento
– uma relíquia classificatória do temperamento humano. Segundo Hipócrates
(médico na antiguidade), o equilíbrio e saúde do homem dependiam da
harmonização dos humores: sanguíneo, colérico, fleumático e melancólico.
Naquele tempo, buscava-se enquadrar as pessoas em algum desses tipos e, com
isso, saber do que ela precisava para viver bem. Por exemplo, tirando um pouco
de tristeza e colocando um tantinho de vivacidade. É curioso o fato de a teoria
dos humores não desaparecer. A medicina moderna praticamente a ridiculariza por
sua ingenuidade quase tocante. Contudo, a força do alicerce da teoria tem
sustentado grandes reformas.
Se bem entendi a montagem do belíssimo
Dragões, Enrico nos fez pelo menos
dois convites: conhecer-se e reconhecer-se como parte integrante do Universo,
não necessariamente nessa ordem. Ele diz: “Toda história de um homem descreve a
poeira pelo vento na estrada. Tudo se encerra na terra, assim que o sopro para
de suas narinas, na morte. ” Hipócrates, 400 anos antes de Cristo, via-nos como
integralidade, a saúde mental e física do homem, derivados do meio ambiente, da
dietética e da personalidade, uma visão holística, quem sabe.
Na “ópera” de Nery e para Hipócrates,
os elementos da natureza - terra, ar, fogo e água – relacionam-se pari e passu com os temperamentos
descritos, um dragão para cada elemento, os ovos dos dragões encerrando o poder
que emana de cada uma dessas personalidades.
Saindo do palco e entrando na cozinha,
a teoria dos humores direcionou a dietética da época. Hipócrates, e mais tarde
Galeno, acreditavam que alimentos teriam capacidade terapêutica: “Alimentos são
medicamentos” foi dito há dois milênios. E muito embora o menu da época fosse
equivocado em muitos pontos, a ideia da intervenção dos nutrientes para nosso
bem-estar segue cada dia mais forte. Portanto, um banquete compensador poderia
ter sido oferecido às donzelas de Enrico Nery, sofredoras, solitárias e prisioneiras
da máxima letargia, cólera, depressão ou leviandade.
Sem comida e com tanta excitação
encerramos a noite de domingo sanguíneos. Tranquilos pela paz que a Arte e a Natureza
são capazes de dar e com a cólera aplacada pela exibição de tanta beleza.














