segunda-feira, 23 de julho de 2018

Doçura



                                                                                              Para Adriana Monteiro

Para a careca eu estava preparada, porque a vi diversas vezes em fotos, mas não só: meu marido é careca. Ao vê-la, não me espantei, achei que lhe caiu bem o topo magro e simples. Além disso, a silhueta está compatível e ela sorri desafiadoramente, não para mim, mas para a doença. Depois dos abraços, sentamo-nos lado a lado e assim, próximas e folgadas, observei a diferença. Meu marido é careca por convicção, age positivamente para esse fim, seus pelos, em oposição, se afiam em aspereza e desafio. A careca da minha amiga é docilidade, na contraluz os poucos fios são etéreos, o toque é de seda, seus cabelos não parecem crescer, parecem surgir da obra de um vagaroso bicho que deposita um fio aqui outro ali. A careca do meu marido é ringue, a da minha amiga pede colo.

Enquanto eu pensava sobre isso, minha amiga tentava me convencer a cruzar Curitiba para, do outro lado da cidade, experimentarmos a melhor Banoffee dali. Ela não se lembrava se tinha esse doce aqui em Franca, mas lá em Curitiba ele é um clássico. A Banoffee é uma torta inglesa que provavelmente foi levada para o sul do país pelos imigrantes. Certamente não é um clássico tão antigo, já que não se vê bananais na Inglaterra. A torta tem uma base de bolacha maisena, busquei uma receita na BBC de Londres e a recomendação foi a mesma. Tentei uma versão com massa quebradiça, mas achei a bolacha melhor. Por cima, doce de leite, que é naturalmente uma adaptação. A receita original pede a cobertura toffee, que é o caramelo das balas Toffee, que tanto sucesso fizeram entre nós.

A diferença entre o doce de leite e a calda toffee é que doce de leite é feito de leite e a toffee de creme de leite fresco. O doce de leite é a redução da água do leite, concentrando seu açúcar e gordura. O creme de leite já é adicionado de gordura e não precisa ser reduzido, só fervido, a ele se acrescentam manteiga e açúcar mascavo. Em Curitiba utilizam o doce de leite em pasta ou leite condensado cozido na lata. Por cima, banana em rodelas. Por fim, chantilly - aí sim, obrigatoriamente de creme de leite fresco, nem pensar em arremedos. E deve ser servida bem gelada.

Minha amiga cruzou um túnel de provações e, do outro lado, saiu a pessoa de sempre, disposta aos mesmos gestos de afeto e a cometer as mesmas besteiras. Nós fomos da Banoffee para o arroz doce de arbóreo e desse para a torta de amendoim - antes de todos, o pastel de Belém.

Pareceu estranho, mas foi um alívio não ouvir dela lições rasas que se pretendam últimas e grandes. Em um aspecto ela vive o momento da cura da mesma forma que o da doença – sem se alçar, sem se ajoelhar.  Foi tão bom encontrá-la tranquila e ciente de nossa humanidade que deu vontade de ficar, de voltar...e se chorei foi breve – pelo tempo de uma pequena nuvem que encobre um sol primaveril.   


quinta-feira, 12 de julho de 2018

A onda Detox



Sou uma entusiasta dos sucos, razão pela qual devo ler o que os desqualifica para evitar ser triturada pela confirmação das mesmas ideias. Por isso me detive sobre um interessante artigo sobre a denominação detox nos sucos e a irritação de alguns estudiosos sobre a imprecisão do termo e suas consequências. Colocaram grandes produtores de sucos detox num labirinto e propuseram a charada: do que afinal nos desintoxica um detox?

A reportagem começa por investigar o que vai dentro de famosas garrafas como as preenchidas pela Juicing Company, nada a esconder, em suas prateleiras há um verdadeiro exército do bem-estar: cacau, maca peruana, semente de cânhamo, chia, açafrão. Eu rio e, a baixa, voz digo: os americanos são foda! Eles conseguem tudo o que querem, colocam o mundo ao dispor deles, transformam a convenção dos ingredientes mais potentes do planeta num copo de 8 dólares! Mas voltemos, porque não estamos a tratar de imperialismo nem nutrientes, a questão é a desintoxicação. Outro grande nome do suco detox assegura que 10 dias de pimenta cayena, suco de limão e xarope garantiriam um organismo limpo.

Fato inegável é que tanto aqui como lá os sucos detox são símbolo de status, frequentadores assíduos das redes sociais e mitos de saúde imediata, depurante e moderno. Pior, nublam a verdadeira causa da boa saúde: um conjunto de bons procedimentos. Pior ainda, dão combustível extra àqueles que os tomam por uma pílula mágica, soltando ainda mais as rédeas da intoxicação alimentar – um copo de suco detox compensa o pedaço extra de pizza. Ou servem ao radicalismo, viver de sucos, ao que parece, traria sérias implicações a todo o sistema digestivo.

Questionado, um dos chefes de operação da cadeia Jucing, se diz preocupado com suas próprias palavras, e alerta: “Não vendem sonhos e há muito escapismo na ideia do suco detox. ”

Mas afinal, nossos corpos em bom funcionamento, filtrarão e jogarão fora o insuportável, pela urina, pelo suor, fezes, respiração. Podemos ajudar esse básico processo biológico, ingerindo boa água – esse líquido benfazejo que promove a saúde de todas as células. A alimentação vegetal orgânica e claro, os sucos naturais e atividade física. Como se pode ver, nenhuma novidade. Exibir o detox é só mais um falso Eldorado.

E mais um detalhe, é durante o sono que acontece a desintoxicação do corpo, o aspecto de nossa urina pela manhã é a prova de que tudo correu muito bem.  

quinta-feira, 5 de julho de 2018

O peixe e o viver


Há água por todos os lados e a cor é verde jade quando rasa, safira quando funda e adiante enxergo preto. Piso em tábuas, pedras, areia, sinto-me longe - essas não são as texturas da minha casa. Há o perfume suave de uma planta que não conheço, as palmeiras se rasgam pelo embalo da ventania e, nos seus caules, sem proteção, sofrem as orquídeas que não são daqui, foram colocadas, certamente gostariam de voltar comigo. Meditação marcada para às sete da manhã - se as condições meteorológicas permitirem, e Yoga para às cinco da tarde: ambas de frente para o mar - encarando o berço da vida, deve ser mais fácil encontrar o equilíbrio.

Em que lugar estou?

Vamos visitar a plantação de cocos e cada coco tem sua própria personalidade e um nome fofo dado por crianças fofas. À tarde tem feira do peixe: um carrinho de mão puxado por uma moça enluvada apresenta-nos os peixes frescos do dia. São três as possibilidades. A brincadeira é escolher o peixe e o modo de preparo e, no jantar, ter o resultado.

Poderia ser só um excelente peixe fresco no jantar? Sim, poderia. Mas queremos mais. O peixe vermelho, na carroça branca, os olhos ainda líquidos e vítreos carregados da intimidade que há pouco houvera entre ele e o pescador. Eriçar as guelras úmidas de água e sal e macular o batismo eterno dos seres que conhecem um só sacramento. Queremos comprar a experiência do outro, ignorando o simples: experimentar é um viver intransferível.

Em que lugar estou?

A noite somos levados à mesa reservada, há velas em cima e embaixo da mesa, para que os olhos brilhem e os pernilongos não nos suguem. Nosso peixe está fantástico, levemente grelhado, limão siciliano e thaiti, tomates e alcaparras, minis e grandes. Ambas diferentes das nossas alcaparras comuns. A mini eu já conhecia, a grande não, tem quem as chame de alcaparrão. São a mesma coisa, embora o gosto estivesse mais azedo e menos salgado, mas pode ser só uma questão de conserva. Elas vêm com os cabinhos e se pareceriam com um jiló, não fossem compridas. Em grande quantidade eram o tempero principal do peixe, mas não lhes tiraram a delicadeza.

Estava tão bom que não reclamava nada, embora houvesse purê de batatas para acompanhar. Estava tão bom que deveria ser o suficiente para aplacar a fome e serenar o espírito. Estava tão bom que me fez saber onde e porque estava.
Noite alta, atravessamos o corredor de pedras ladeados por Scavólias (assim me disseram) muito verdes.

É possível que lá no mar, todo negro, alguma traineira fedida de diesel estivesse a sair a procura de mais Vermelhos.