Para
Adriana Monteiro
Para a careca eu estava preparada,
porque a vi diversas vezes em fotos, mas não só: meu marido é careca. Ao vê-la,
não me espantei, achei que lhe caiu bem o topo magro e simples. Além disso, a
silhueta está compatível e ela sorri desafiadoramente, não para mim, mas para a
doença. Depois dos abraços, sentamo-nos lado a lado e assim, próximas e folgadas,
observei a diferença. Meu marido é careca por convicção, age positivamente para
esse fim, seus pelos, em oposição, se afiam em aspereza e desafio. A careca da
minha amiga é docilidade, na contraluz os poucos fios são etéreos, o toque é de
seda, seus cabelos não parecem crescer, parecem surgir da obra de um vagaroso
bicho que deposita um fio aqui outro ali. A careca do meu marido é ringue, a da
minha amiga pede colo.
Enquanto eu pensava sobre isso, minha
amiga tentava me convencer a cruzar Curitiba para, do outro lado da cidade,
experimentarmos a melhor Banoffee dali.
Ela não se lembrava se tinha esse doce aqui em Franca, mas lá em Curitiba ele é
um clássico. A Banoffee é uma torta
inglesa que provavelmente foi levada para o sul do país pelos imigrantes.
Certamente não é um clássico tão antigo, já que não se vê bananais na
Inglaterra. A torta tem uma base de bolacha maisena, busquei uma receita na BBC
de Londres e a recomendação foi a mesma. Tentei uma versão com massa quebradiça,
mas achei a bolacha melhor. Por cima, doce de leite, que é naturalmente uma
adaptação. A receita original pede a cobertura toffee, que é o caramelo das balas Toffee, que tanto sucesso fizeram entre nós.
A diferença entre o doce de leite e a
calda toffee é que doce de leite é
feito de leite e a toffee de creme de
leite fresco. O doce de leite é a redução da água do leite, concentrando seu
açúcar e gordura. O creme de leite já é adicionado de gordura e não precisa ser
reduzido, só fervido, a ele se acrescentam manteiga e açúcar mascavo. Em
Curitiba utilizam o doce de leite em pasta ou leite condensado cozido na lata.
Por cima, banana em rodelas. Por fim, chantilly - aí sim, obrigatoriamente de
creme de leite fresco, nem pensar em arremedos. E deve ser servida bem gelada.
Minha amiga cruzou um túnel de
provações e, do outro lado, saiu a pessoa de sempre, disposta aos mesmos gestos
de afeto e a cometer as mesmas besteiras. Nós fomos da Banoffee para o arroz doce de arbóreo e desse para a torta de
amendoim - antes de todos, o pastel de Belém.
Pareceu estranho, mas foi um alívio não
ouvir dela lições rasas que se pretendam últimas e grandes. Em um aspecto ela
vive o momento da cura da mesma forma que o da doença – sem se alçar, sem se
ajoelhar. Foi tão bom encontrá-la
tranquila e ciente de nossa humanidade que deu vontade de ficar, de voltar...e
se chorei foi breve – pelo tempo de uma pequena nuvem que encobre um sol
primaveril.


