quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Calafate - a fruta que vem com o invero



A cidade é pequena, destas que cabem num raio de visão, está a 3 horas de voo de Buenos Aires no sentido sul, portanto, na Patagônia, no parque dos glaciares, a 40 minutos dos pinguins. A pequena El Calafate é um acidente ao redor do grande lago Argentino, uma das maiores e mais importantes reservas de água doce do planeta, a cor de suas águas varia a medida do humor do dia, indo do verde jade ao cinza, algo calcário. Estão a embalar enormes blocos de gelo azul anil que se desprendem dos glaciares – o que acontecia à velocidade do fruto maduro que se desprende do pé, de dez anos para cá, foi contaminado pela nossa ansiedade - e os icebergs agora se soltam rápidos, verdolentos, suicidas.

Embora cercados por água e gelo, os moradores da cidade se identificam com uma planta frutífera que lhes dá o nome, o calafate, cujo fruto em tudo se assemelha ao mirtilo, menos no sabor. É um arbusto de médio porte, cheio de espinhos e que apresenta variações intensas de cor e perfume, não importa se são apenas as flores, os frutos de vez ou maduros, ele sempre cheira e atrai pelas cores vibrantes.

Jantamos no restaurante La Bahía, com vista para o remanso circular empossado das águas do lago e de onde se avistam patos selvagens e talvez flamingos. A garçonete, na noite anterior, já nos falara da sobremesa combinada entre calafate e chocolate, que me parecera ótima. Terminado o jantar, pedimos a sugestão: sorvete de chocolate, com sorvete de calafate, caramelo e a frutinha embebida em licor. O sorvete de chocolate, pela cor e formato das estrias, não deixava dúvidas quanto a cremosidade, o de calafate também, mas não sei explicar seu sabor. Só sei que para mim o gosto do calafate é de marrom-glacê, o doce francês de castanhas cozidas, embora a cor nos induza a pensar em açaí. Apesar de venderem a ideia de que seja a blueberry argentina, não consegui encaixar o sabor da fruta em qualquer coisa que nos seja familiar. A fruta rende outras produções: geleias, licores, doces e bolos. E não é coisa exótica para impressionar turista, as pessoas da cidade gostam do calafate.

O que se atribui às águas de outros lugares, ali se diz sobre a fruta: quem a prova voltará a El Calafate. As lendas em torno da planta se justificam pela generosidade de sua frutificação, que se dá no inverno. Quando tudo estiver sem vida, pálido e gelado, seus frutos pretos azulados, serão a lembrança do doce e da intensidade da vida.