sábado, 23 de junho de 2018

Uma salada e o passado



Durante a minha infância, morei em várias casas, todas úmidas e inacabadas. Lembro-me do lodo no chão, nas paredes e de água empossada na época das chuvas. Lembro-me também de uma sombrinha que minha mãe guardava encostada no tanque e, ou porque aconteceram várias vezes, ou porque a única vez foi por demais marcante, sempre que eu abria essa sombrinha havia uma perereca, alojada nas dobras do tecido, que pulava em mim.

Pois estou a observar as águas: a da piscina de borda infinita, cujo revestimento caprichosamente nos remete ao mar – quase ao alcance das mãos de quem se debruçar sobre a beirada. Adiante, o céu escuro gesta chuvas que nascem, morrem e ressuscitam o dia todo. O espaço parece sustentar um varão por onde uma cortina d´água é puxada de um lado ao outro. Mal piso o deck e alguém se dispõe a arrumar uma esteira, forrar o colchão, dobrar a toalha que gentilmente apoiará minha nuca para que eu consiga ler sem me cansar. Um enorme guarda-sol começa a ser aberto numa harmonia de varas e cordões. Ao lado, eu espero e, de repente, um sapo branco sai das pregas do tecido e pula em mim.

Assusto-me, rio, todos riem, mas me dá vontade de chorar pela emoção da memória que o animal desperta. Tive de me conter, ou o rapaz ficaria apavorado. Em que idioma, senão no meu, eu poderia explicar algo assim? Teria de lhe pagar uma Corona no bar da piscina para, com tempo e disposição, apresentar-lhe meu vívido passado que sugere: sofrimento não é tristeza.

O sapo foge, mimetiza-se na areia que é da cor do guarda-sol. Imagino que ele tenha consciência de si próprio. Sento-me no bar de onde posso observá-lo, não quero perdê-lo de vista. Solto o bronzeado, pego o cardápio, acho que há fome para uma salada. Escolho a Big Salad, que nem é tão grande, mas é adorável.  Vários legumes crus vêm cortados em tiras finas como espaguete: abacate, quinoa e lentilhas germinadas e brócolis crus também. Não vejo rúcula por aqui, em compensação a alface é a romana. Além disso, grãos de feijão. Quem quiser arriscar não se arrependerá.

Enquanto despejo o molho vinagrete, o sapo não mais está lá. Enquanto penso que o nome Big deveria ser trocado por Total Salad, porque é uma refeição perfeitamente balanceada, o sapo já se escondeu em algum outro branco mais distante. Enquanto me ajeito no sofá e admiro a cerâmica em que veio a salada, meu sapo deve estar a procurar um canto seguro, mais úmido.

O curioso é que não ouvi coaxares nem antes nem depois de trombar com ele. Questionei meu marido sobre sapos e grilos e a resposta dele também foi negativa. Todos os dias eu comi a Big Salad entre o guarda-sol, a areia, meu passado e uma ausência. 

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Um elo entre nós



Nós também começamos com bem pouco. Decidimos que teríamos uma porção agradável de legumes para servir. Não que houvesse horda de pedidos, nós pretendíamos antecipar a demanda, melhor que isso, incitar a demanda. No entanto, originalidade zero! Rio com a matéria da Folha de S. Paulo que relata justo isso: o crescimento da demanda e oferta de legumes nos restaurantes. Aliás, melhor tratarmos de hortaliças, essa bela palavra que vem da horta e contempla tudo: legumes, verduras e ervas. Acredito que mesmo a compra de ervas, hoje em dia, seja maior do que antes, uma coisa puxa a outra.

Começamos pelas raízes óbvias: a batata doce, a cenoura, a mandioquinha, a batata inglesa e o “moderno” brócolis japonês - um de cada cor, ficava bonito. Tampouco o método de preparo se manteve, cozinhávamos no vapor, esfriávamos na água fria para interromper o cozimento do calor residual, depois secávamos, embalávamos e congelávamos. Como se pode ver, o excesso de verbos revela excesso de trabalho também. Era um bom método, mas, às vezes, pequenas gotinhas de gelo se formavam nos palitos de cenoura, nas copas dos brócolis, e o resultado era a moleza, algo inaceitável se estamos a tratar de legumes.

Houve também o tempo das incorporações: cabotiá, cebola, vagem, palmito, chuchu, às vezes cogumelo, às vezes ervilha torta, dependendo da estação. A mais recente foi a troca do pedaço de batata inglesa pela batata bolinha com casca e cortada ao meio, ficamos assim com semiesferas, cilindros, cones, floretes...chegamos ao ponto: eu não dou conta de comer nossa porção de legumes.

Desse conjunto, se sobressai a cabotiá. Alguns clientes só aceitam o resto se ela estiver junto, outros desejam tudo, menos ela. Ela segue firme, embora seu preparo e temperos sejam personalíssimo, só ela é assada. Para levar ao cliente, pior ainda, se a colocamos junto aos outros, na mesma frigideira, tudo sairá borrado de cabotiá – oito bocas de fogão, às vezes ocupadas com enormes panelas com caldos, pato, cinco quilos de rabada, e a gente avista uma frigideira enorme ocupando uma boca com um mísero pedaço de cabotiá. Mas a gente gosta dela mesmo assim.

O que começou com um desejo meu acabou virando uma obsessão da Dani, nossa ajudante. Seu tom cômico e mal-humorado de reclamar deu lugar ao orgulho, cômico e mal-humorado, naturalmente. De vez em quando ela sugere algo novo, emendando ao final: uai, vocês não queriam ter uma porção de legumes?! Foi a Dani também que modificou o preparo tornando-o eficiente e melhor.

Os legumes são um elo entre nós: eu, Lelê e Dani. Desconfio que eles dialoguem com os sons da Terra e com os nossos. Ainda não exaurimos as piadas e reclamações em torno desse simples acompanhamento.

O peso das sacolas de filé mignon, a purificação dos caldos de rabada e paleta, a montagem alucinante da costelinha, nada, nada disso se compara a nossa ira pelos legumes moles, desbotados e murchos - ou o contrário: nossa exaltação com o brócolis perfeito.