sábado, 29 de fevereiro de 2020

Antes da meia noite



La Luna sul Colosseo é um passeio de pequeno grupo, guiado pelo interior dessa monumental construção romana. Queria escapar das filas exasperantes para visitação e descobri essa visita noturna. É relativamente recente a iluminação cinematográfica por toda a obra e, penso que, se sob o sol já são tocantes as galerias, à noite experimentamos uma ponta do medo que invadiam escravos e bichos confinados a esperar o momento fatal ao som estridente da turba que frequentava as arquibancadas. Um guia competente nos contou um pouco de história: toda aquela área era a piscina do imperador Nero, Nerone, para os italianos. Os buracos simétricos na construção de mármore travertino (Roma é feita de mármore travertino, tem até sarjeta de mármore) era lugar de metais valiosos que ao longo dos séculos lhe foram saqueados.

Durante a visita, já imaginava isso, surgiu prateada, em contraste com o amarelo romano, uma lua crescente, muito prestes a ser cheia. Na arena lutavam fantasmagoricamente gladiadores e bichos. Naquele momento, a composição toda era tão bonita que o Coliseu não pareceu ser mais real que a apresentação.

Saímos, eu e meu marido, tarde do passeio. Tínhamos jantado muito cedo e resolvemos fazer um reforcinho com um queijo e vinho do supermercado ao lado da gente. Sirigaita, escolhi tudo e passamos a mão pelo gargalo da garrafa, momento em que fomos interpelados pelo atendente: não podíamos mais comprar vinho. Quase ofendidos perguntamos o porquê. Estaria eu, com meus brilhantes 46 anos, e meu marido, nos irradiantes 55, com cara de menos de 18? Não, nada disso.Em toda a Itália está vigendo uma lei que proíbe a venda de qualquer bebida alcoólica após as 22 horas.

Sem pestanejar, corremos para uma pequena taverna para um pedaço de pizza e uma taça de vinho. Porta na cara. Nem nos restaurantes pode-se vender. Se o vinho acaba depois das 22h., é chupar o dedo. O resultado disso é que os restaurantes fecham muito cedo, o povo bebe menos e parece que há menos confusão pelas ruas. De nossa parte, no dia seguinte, fizemos um estoquezinho e bebemos depois das 10, ainda mais satisfeitos, pelo, também, prazer da ilicitude.

sábado, 22 de fevereiro de 2020

O carteiro e a comida



Quando escrutamos um cardápio italiano, tradicional, é normal a classificação das opções em: entrada, primeiro prato, segundo prato, complementos ou contornos e doces. Para mim e, penso eu, para a maioria das pessoas, essa é uma classificação meio inútil, que nos dá a impressão de que os “primeiros pratos” estão a meio caminho da entrada e do prato de “verdade” - bobagem.

Nem me lembrava disso quando, no sul da Itália, na Sicília, vi casais a minha volta pedirem um prato e daí a pouco pedirem outro prato. E comecei a reparar e achar todo mundo guloso. Aponto:“olha lá, ela comeu aquele peixe, agora pediu a massa! Não acredito, comeram a lagosta, agora pediram um filé!” Até que, ao fazer meu pedido, o garçom anota um, espera um minuto e então pergunta: E il secondo piato, signora? Não peço, mas me faz feliz.

Hoje em dia viajamos já sabendo que aquele papo de “como é bom descobrir outras culturas...” perdeu a relevância. Estamos imersos num cybermundo que a cada instante nos clona. Por isso, descobrir hábitos diferentes é surpreendente. A cultura alimentar se mostra, por excelência, nos ingredientes, mas a maneira como distribuímos nossas refeições também é cultural. É revelador os italianos distribuírem a refeição em dois ou mais pratos. A intenção não é engordar, mas celebrar o ato de comer, reduzindo o ritmo da refeição.

Nós, brasileiros, temos um ótimo regulamento. Tratamos bem o café da manhã, tanto que o caipira paulista, nós, chamava esse pequeno almoço de café-de-duas-mãos; depois almoço e jantar bem assentados, podendo haver uma ceia noturna, para os que sabidamente jantam cedo. O europeu nunca curtiu bem o café da manhã, nosso hábito os estranhava. Deve ser por isso que o café da manhã na Itália é doce, só doce. Constitui-se de uma bebida quente doce, café ou cappuccino, com um corneto (croissant) doce - o recheado com frutas vermelhas é excelente.

Mas a Sicília, a adorável ilha, com interferência grega ainda bem viva, é um ponto fora da curva. Eles são aguerridos na defesa de sua cultura e brigam, como bons italianos, em defesa própria. Assisti a um garçom impedir uma cliente de pedir um salmão, que embora no cardápio, não é de lá. Por outro lado, os condutores de Vespas passavam livres sem capacetes, ignorados pela polícia.

Acho que é isso, todos nós erramos e acertamos, mas os sicilianos, por ora, estão preferindo errar e acertar por conta própria. 

sábado, 15 de fevereiro de 2020

Pés na terra



Sempre quisemos servir peixe fresco no Azul e nunca conseguimos. Alguns clientes perguntam se os peixes do menu são pescados ou de cativeiro, e nós respondemos, meio frustrados, que nossos peixes são de cativeiro, comprados de uma empresa de médio porte, aliás, ótima, que garante tempo e qualidade. Nós bem sabemos com o que sonham esses clientes! Nós dormimos juntos e sonhamos o mesmo sonho. Claro, amaríamos receber pela manhã um balaio por onde vazasse água salgada, teríamos no fundo do restaurante, um tanque rústico onde o velho lobo do mar despejaria peixes e crustáceos quase vivos, poder-se-ia ouvir o tectec das conchas nos seus estertores.
E como nós os prepararíamos?

Começaria pela decoração.Da janela de nossa cozinha, aceitaríamos ver apenas verde, branco e várias tonalidades de azuis, ao invés de dois botijões P43 de gás. Depois, faríamos o peixe assado, acompanhado por legumes – ensinamento da cozinheira que preparou o melhor peixe que já comi, em Paraty. Depois a iluminação seria só de velas, porque a luz bruxuleante se mostrou a melhor para iluminar uma travessa de Barracuda e tubérculos. E todo mundo teria que comer a cabeça do peixe, porque é assim que se faz. E tanto nós, como vós teríamos tempo, do tipo que só escorre durante as férias.

Então, caímos todos da cama.

Mas a gente se vira com o que tem. Enfim, conseguimos um comerciante de peixes que jura que entregará para nós, toda sexta-feira, peixes frescos, normalmente tilápia (sempre ela) e tambaqui.Ele também acredita que os peixes terão um padrão aceitável de peso. E só. A preparação será a que melhor atende ao paladar: assado na folha da bananeira. Isso sim será desafiante. Embora trabalhoso, esse invólucro se mostrou o melhor, de longe. Parece minucioso falar em aroma ou capacidade de vedação da folha da bananeira, quando temos, por exemplo, papel alumínio, ou papel manteiga. Pois é, não é. Ela é insubstituível.

Depois de tantos anos, vamos tentar algo novo que, acreditamos, seja bom, porque mais justo e natural sem perdermos sabor ou prazer.

Tomara que dê certo, e que possamos nos encontrar na mesa, que é o lugar das coisas concretas.     

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

O Terreiro do meu pai




Calculamos o tempo de modo a chegar em nosso destino pela hora do almoço. Almoço de 25 de dezembro, almoço de Natal. Próximos eram: partida e chegada. Mas, entre elas, uma estrada difícil. Começamos saindo de Juazeiro do Norte, passando por Barbalha, Missão Velha, depois Barro, e o motorista da Van, Edimar, nos informa que é a cidade da Silvia Designer. Meu pai, comendo banana, não entendeu a informação e pergunta: quem? Eu falo em alto e bom som, e ele: “Ah! Conheço muito”. Eu penso: Jesus, de onde ele conhece a mulher-gato, que estampa as fachadas das lojas dessa nordestina arretada?  Quantas vezes, chegando na rodoviária de São Paulo, passando em frente a uma de suas lojas, pensei: quanta autoestima...

Horas depois, quase passamos reto pela casa de meu tio. Mas esse, mais atento que nós, gritou se abanando todo e nos fez chegar e viver toda aquela história entre pessoas que se amam e passam uma vida sem se ver. Adentramos à cozinha e fomos avisados: “nós todos já almoçamos, o serviço no roçado começou às 5, das 11 horas ninguém escapa sem comer”. Os pratos duralex empilhados, os talheres em cima da mesa, com toalha plástica, e os bancos de madeira clara foram um convite irresistível à verdade da vida.

Uma bacia com jerimum só cozido, bem firme e doce, era passada de mão em mão para nós; melão picado e doce devia ser misturado ao arroz - Michele Obama aprovaria -; feijão de corda, caldo bem ralo com coentro picado; o mugunzá e bode cozido. Fiquei tão feliz que mesmo se a comida estivesse ruim, eu adoraria. Que felicidade testemunhar uma família se alimentando na tradição do seu terreno. Elogiei muito o sabor de tudo, à guisa de alívio, porque temi ser recebida com frango frito ou pizza ou qualquer coisa industrializada.

Meu tio cria bodes e nas ocasiões especiais mata um. Eu já sabia que ele o faria. Minha tia Severina, quem preparou, estava com cara de: “vocês vão gostar”. Mas estava além disso, foi certamente uma das melhores carnes que já provei. Ela quis passar o mérito ao meu tio: “ Só Vicente sabe escolher o animal certo e o peso limite para dar essa carne aí, menina”.
A carne soltando do osso - delir, é o verbo. Mas quem se importa. O bode foi feito em panela de barro, no fogão à lenha, que veio do quintal e por lá foi quarada e rachada pelo sol Nordestino. 

Portanto, comemos algo que, provavelmente, jamais comeremos.