Eita que, pela primeira vez, fiquei
sem assunto para escrever porque, justamente, nada tinha relevância se
comparado ao novo coronavírus. A semana pareceu a extensão daquelas Sextas-Feiras
da Paixão da infância, quando não se podia correr ou cantar. O ar ficava
grosso, o deslocamento pesado, chegava a doer as juntas porque era pecado, e
esse é fardo.Fiquei na infância e me lembrei de quando não tinha aula e
ficávamos todos em casa, montão de meninos, enlouquecendo a mãe. Mas naquele
tempo ela podia tocar a gente pra fora, pra rua, para ela passar o pano no chão
da casae descansar, de boca para baixo, as louças na pia para escorrer. A tampa
do fogão estava abaixada, enfeitada por um pano de prato. Eu sempre sentia um enorme
prazer pisar descalça no chão de vermelhão limpo e fresco, e se fazia muito
calor, eu me estirava...
Às vezes, à tarde, tinha rosca com
cheiro de fermento fresco e bolinha de massa dentro do copo americano cheio de
água, ou então bolo, às vezes pão com Q-suco de guaraná, meu preferido. Nesses
tempos, o ar era levinho, a mãe magrinha, quando não estava barriguda. Eu vi
seis barrigas dela e um só vestido de grávida, feito por uma vizinha costureira:
era vermelho com vivos azuis. Em semana de faxina, a mãe encerava e eu escorria
o esfregão pelo chão. Depois, meu pai comprou uma enceradeira azul celeste que
deixava umas ondas furta-cor pela casa. O chão ficava tão liso que dava vontade
de jogar bugalho, para na última etapa da brincadeira, quando indicador e
polegar fazem uma ponte, por onde quatro bugalhos devem passar, deslizar a almofadinha
para longe.De vez em quando eles iam parar debaixo da geladeira com pés de
porcelana branca. Essa manobra com o bugalho era uma audácia, feito um drible.
À noite, a gente jantava algum resto
do almoço e, se fazia frio, minha mãe fazia sopa de macarrão com batatas em
quadradinho. Naquele tempo também não tinha pimenta do reino em grão – ou nós
não sabíamos que existia – e a mãe colocava a pimenta moída mesmo. Quando a
colher raspava o prato, chiava e eu pensava que estava tomando sopa com terra.
Falei dessas coisas, porque elas,somadas
a outras, me fazem muito bem e me mantêm centrada e feliz, ainda que seja uma
alegriazinha triste, que é, aliás, minha zona sentimental de conforto.



