terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Simón Bolívar e o arroz de coco


                                                                                                                                       

Montado em lombo de cavalo, Simón Bolívar cavalgou o suficiente para duas voltas e meia no globo terrestre. Devido ao seu formidável calo nas nádegas, ganhou o apelido de cú de ferro - diziam que ele dormia em cima do cavalo. É fato, a necessidade o impeliu a empreender jornadas inacreditáveis, mas a paixão o motivava, à visão de cavalos selvagens na campina, dizia ser a coisa mais bonita do mundo. Fiquei surpresa ao saber que o império que Bolívar arrebatou da Espanha era cinco vezes maior que a Europa e que ele não comia nada. A magreza extrema denunciava que chegava a passar dias tomando apenas uma infusão de papoulas ou de ervas, outras vezes um copo de vinho; prazer à mesa, ele sentia ao comer um mingau de milho feito pela sua cozinheira índia, ainda que lhe fossem oferecidos ovos mexidos em caçarola, pamonhas, morcelas, tigelas de chocolate denso.
Bolívar entrou na minha vida porque Cartagena das índias foi nosso destino de férias, e essa cidade lhe foi fiel mesmo depois de despojado de poder e glória. Além disso, a casa onde passou um de seus últimos dias, embora não tenha falecido ali, ainda está lá, lindamente restaurada. E por último, Gabriel Garcia Marquez (meu alvo principal naquela cidade) dedicou-lhe uma biografia. Portanto, com meus dois interesses históricos bem definidos, só me faltava saber o que comer.
Não tive qualquer dificuldade para eleger a primeira investigação culinária, porque a curiosidade nascera na adolescência: como sonhei experimentar o arroz de coco com que tantos personagens do realismo mágico de Garcia Marquez se deleitaram. Tantas vezes li seus personagens indo ao porto, à noite ou madrugada, se deliciar com esse prato tão típico da Colômbia. Imaginava-o branquinho, quem sabe numa combinação de leite de coco e coco fresco. Talvez coco verde, quando a carne do coco é ainda uma geleia translúcida. Ou quem sabe, ainda o coco verde, com as carnes formadas no auge de sua juventude, mas já decidido pela brancura das coisas imaculadas. Ou bem poderia ser o coco seco, ralado, melhor, em tiras a exibirem aquela linda e delicada passamanaria marrom. O tempero para esse prato seria o cheiro verde - só que para o bom colombiano, cheiro verde atende pelo nome de coentro. Foi o que imaginei.
Muito bem, tudo errado. Primeiro, ele nem é branco, ele é moreno. Nada contra as comidas morenas, Deus é testemunha, eu amo um queimado, mas é que arroz de coco tinha de ser branco. Mas não, o coco desse arroz é queimado numa discreta calda de açúcar, que confere ao prato um gosto de caramelo. Não é como arroz doce, ele é solto, embora haja uns grumos. E ele não tem outro tempero, nada de pontinhos verdes, nem folhas de coentro, nem pimenta. Gostei. Porém, fiquei com aquela sensação de leite morno na boca.

É incrível a quantidade e a qualidade das coisas que se pode fazer numa vida, mas que tão raramente são feitas. Dizem que o mundo moderno matou a possibilidade de homens como Bolívar. Entendo e não entendo. O libertador faleceu em cama emprestada, ouvindo os escravos, no trapiche, entoarem ave-marias, numa debilidade física tal que devia estar pesando 40 e pouco quilos, mas a alma intacta: “Carajos! Como vou sair deste labirinto?


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