sexta-feira, 24 de março de 2017

Ouro dos não tolos



O capim dourado trançado reluzia de modo discreto como uma fina joia Zenú ou Etrusca, tão valiosas quanto discretas. Bem observada, percebia-se que o cabelo da trança não estava penteado, disciplinado ao modo dos géis, mais se parecia com um dread – embora naquela época, para mim, isso não existisse. A giganta perdeu o seu colar, era o que eu imaginava todas as vezes que eu via na cozinha da minha mãe uma réstia de cebolas pendurada, ou qual seria o tamanho da ostra que parira aquelas baitas pérolas cor de âmbar. Ainda hoje uma cebola de bom tamanho, dourada, cascas finas que se soltam ao contato com as mãos, não me é indiferente e me é prazeroso cortá-la dum golpe só, com a casca, interior de roseira, ácidas pétalas brancas que fazem chorar, uma das maiores células que existem (?) observadas no microscópio da escola pública.

Mas me lembrei disso justamente porque nunca mais eu vi uma réstia de cebolas. E fui saber disso com quem entende. Perguntei ao feirante, Rodrigo, filho do sr. João, que fim levaram as réstias de cebola? A resposta é aquela mesma que a gente pensa: Ah, os velhos morrem e os jovens não fazem mais o que seus pais faziam. Mas também por outro motivo, compramos cebolas vindas da Bahia, de Goiás, vários atravessadores e comerciantes que não vão ficar trançando réstias, naturalmente. Tanto que, me disse ele, ainda se vê, inclusive pode-se encomendar uma, mas só quando a safra de cebolas é daqui de perto, como Monte Alto, quando eles compram de quem produziu.

Para minha surpresa, pode-se utilizar um capim para o trançado, o que garante maior segurança, porque a rama da cebola pode estar fraca e não suportar os pingentes. Meu feirante disse que não vê motivos para isso, acha que a réstia original só pode ser feita da rama da própria cebola. “Ademais, é exatamente a rama seca o indicador de que a cebola está madura”. Ocorreu-me também que eu nunca vi uma cebola verdolenta. Outra coisa que me recordo é que, quando eu comprava cebolas, elas eram pesadas e quando era a réstia não. Ao que parece, dependendo de quem faz a réstia, elas terão mais ou menos o mesmo peso, questão de confiança.

Coisa do passado, porque hoje em dia a réstia é pesada e assim vendida, claro que nesse caso a réstia vira cebola, para todos os efeitos.

Na casa da minha infância, o normal era comprarmos uma cebola, só não era meia pela impossibilidade, por isso, pra ser honesta, quando eu via a réstia de cebolas penduradas na nossa cozinha era o sinal de que as coisas estavam bem, se tudo aquilo era só para o começo, imaginem só a riqueza dos refogados...

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