O ar que eleva e sustém
Foi só depois que eu escrevi a frase:
“nesse caso o ar deveria ser ingrediente e não modo de fazer”, que me dei conta
da relação estabelecida entre o ar e várias preparações culinárias. Uma lufada
fresca me fez rever o grau de controle que pensamos ter sobre a comida que
preparamos, porque muitas vezes a influência do meio é a rasteira que não
queremos levar. Podemos começar esse papo de modo comezinho, com a clara em
neve. Quando queremos essa transformação das claras dos ovos, o que fazemos?
Inserimos ar nas claras através de um batedor ou da batedeira elétrica. O
processo é simples, por isso nem o valorizamos, mas o requinte dessa técnica é
que na maior parte das vezes, em que fazemos clara em neve, estamos meio
mal-intencionados, na verdade queremos é levar à outras preparações complexas,
o ar, que de outra forma não seria capturado. É o pão de ló, o suflê, por
exemplo, que inflam no forno graças às bolhas de ar aprisionadas na espuma da
clara.
É verdade que a clara em neve continua
sendo clara, a despeito da enorme transformação física. Mas o que dizer do pão?
Nesse caso a mudança é de essência. Seria impossível a nós sobrevivermos
comendo apenas farinha de trigo, mas é perfeitamente possível sobrevivermos
apenas de pão. Foi o que um químico em alimentação disse. Porque, nesse caso, o
ar é vida, passa a ter alma. Pode ser que a simbiose do ar e a farinha de trigo
tenha começado no Egito antigo, é o que defende o estudioso Pollan. Acostumados
a comer uma papa feita de trigo e água, possivelmente alguém esqueceu uma
vasilha desse mingau e quando a encontrou viu que, primeiro, o volume tinha
aumentado, que bolhas de ar eclodiam na mistura e quando teve a ideia de assar
aquilo, ficou duplamente maravilhado, porque o milagre da multiplicação do alimento
se fizera, mas, principalmente, sabor e perfume acompanhavam o sopro divino que
faz de um mingau de farinha e água virar um pão.
Estamos a tratar do pão feito de
fermento natural produzido em casa a partir de uma isca. Adoro essa terminologia
porque trata-se exatamente disso: isca, que capturará os micróbios que tem o ar
por morada e que por afeição preferirão aquela mistura, que pode ser de farinha
e água, ou caldo de figo, abacaxi. Nossa experiência com o fermento natural nos
mostrou que na verdade tanto faz a matéria inicial da isca, rapidamente todos
eles terão o mesmo gosto, isso porque é uma questão de terroir: os micróbios de Franca é que ditarão o sabor e o perfume dos
pães, feitos a partir dos gases por eles expelidos. Bobagem trazer fermento de
outras localidades - rapidamente serão todos francanos.
Perto de 80% de um bom pão é ar, e
nosso erro mais comum é pensar que isso é nada...Vejo diariamente minha irmã se
esforçar em cada vez mais ter mais desse nada
dentro de seus pães, porque quanto mais de nada,
mais sabor mais perfume, mais complexidade terão o seu pão.
Talvez seja uma questão de elevação:
o ar é o etéreo que faz da gosma, do líquido, algo suave, sublime. O fermento
deixado ao Deus dará algo que foge ao controle do padeiro. Um pouco arriscado. Lembra-me
criança a rodar desgovernada de braços abertos a sentir o vento na pele, nos
cabelos e, sem temer a queda, se embriaga de vento porque também almeja
elevar-se.

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