sexta-feira, 2 de junho de 2017

A primeira parada: a isca


As cidades se sucediam na velocidade das Minas Gerais, uma sonolência me acompanhava, a mente não se entendia com o desejo do corpo: apagar. Ainda que o trajeto fosse conhecido, ainda que as paisagens, velhas conhecidas, ainda assim, esforçava-me para me manter acordada para os vários retratos näif compostos de casinha, terreiro, animais e solidão, e me perguntar pela milésima vez, sem jamais obter a resposta: será que eu conseguiria viver num lugar assim?

As placas anunciavam a cidade das goiabas, já passáramos da metade do nosso caminho, então Alterosa nos pareceu um bom lugar para as necessidades de uma viagem mais ou menos longa, paramos. Olho para os lados e vejo apenas aquelas pragas chamadas chips alguma coisa ou alguma coisa chips para comer, ia desistindo, quando vejo uns canudos de folha de bananeira, como se fossem uns charutos muito compridos. Perguntei do que se tratava e a atendente toda sorrisos me falou: “É broa de pau-a-pique, uma delicia!” E eu respondi, toda sorrisos: ô, minha querida, passa uma pra cá!

A broa de pau-a-pique também responde por outros nomes conforme a região do país, pode ser mata-homem, João-deitado, numa clara alusão maliciosa devido ao formato da broa. A receita também aceita variações, mas basicamente é fubá, açúcar, banha de porco, ovos, farinha de trigo, leite e fermento. E o tempero pode ser o cravo ou a erva doce, só que bastante, tipo um a colher de sopa. Dá para combinar os dois também, sem riscos. O sabor não é nada muito diferente das broas que conhecemos, mas o charme adicional da embalagem totalmente ecológica, esbanjando brasilidade é conquistador. Para acompanhar, café, sempre.   

Neide Rigo acha que a broa de pau-a-pique é paulista - e daqui se espalhou pelo Brasil todo. Se ela disse, deve ser, mas agora tem mais é a cara de Minas, e se for verdade que nasceu aqui, esse é mais um caso de apropriação indébita por parte dos mineiros que, sempre atentos ao que uma receita besta é capaz de fazer por um povo, não dormem no ponto.

Por fim, dividimos a broa, tomamos o café e mesmo estando num posto de gasolina desses de rede, aquele charuto chamuscado pelo fogão à lenha, recheado de fubá e banha de porco foi a isca, foi a agulhada no dedo para o pacto de sangue que eu buscava com a natureza, a voz crua emergia como um som vindo do fundo de um poço fresco.

E me sentindo eufórica, partimos. 

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