sábado, 2 de setembro de 2017

Indianas mangas



A frase saiu crivada de indignação: uma mulher sentenciava injustamente à morte uma mangueira: “mando cortar a árvore, nem as frutas eu como, as crianças pegam as mangas verdes no pé, cutucam até arrancar a fruta verdolenga”. Arrisquei uma pergunta, que foi recebida como cinismo: “mas eles pegam a fruta para comer ou jogar fora?” Claro, era para comer, mas um comer que não se concorda.

Pena. Não houvesse antipatia, gostaria de lhe dizer que manga verde é comida, se harmonize ou não com isso. E que as crianças, as poucas que ainda se aventuram nos pés de manga, deveriam ser incentivadas a isso. E que, tampouco, há certo ou errado quanto ao ponto da fruta – as preferências vão desde caldo escorrendo pelos cotovelos, pedaços tenros partidos na faca e, porque não, até as totalmente verdes. É só questão de gosto.

Se me recordo bem, as mangas verdes boas de se comer são aquelas que, em algum ponto, demonstram uma queda para o amarelo. Na verdade, não se vê o amarelo, ele é apenas adivinhado. Lembro-me que, o sal e a faquinha de lâmina gasta e enferrujada, estavam sempre ao alcance da gente. Mas o que ninguém esquece é o prazer da sombra compartilhada da mangueira. Arrancar uma árvore assim é mexer num santuário infantil, num ecossistema de quintal – a vegetação densa é peneira de trama fina que coa o sol tão lentamente que ele esfria antes de atingir o solo. Embaixo dela, a noite chega antes e se recolhe por último. Sua tepidez abriga uma serie de bichinhos e uma discreta vegetação.

Não é crível que a mangueira não seja brasileira, nem que venha de tão longe: da Índia. Com os primeiros portugueses vieram as primeiras mudas, que se adaptaram extraordinariamente bem. Antropologicamente falando, manga verde por aqui é coisa de moleque de vila. Elas raramente atravessavam o umbral das portas de nossas cozinhas. 

Muito diferente no país de origem, onde além de fruto doce, suculento e sensual são também tempero, salada, comida.

Uma das formas mais famosas para se apreciar uma manga verde é o chutney de manga verde. Mas nesse caso a manga perfeita é aquela que, de tão verde, ainda não tem caroço firme.

Nina Horta recomenda espetar a fruta com uma faca, que deverá penetrá-la sem resistência – assim, nunca comi. Mas a manga verde vai muito bem como salada ou acompanhamento para qualquer tipo de carne, refogada com cebola ou alho. Independentemente da preparação culinária, o que se quer dela é o azedo, esse sabor maduro, provocador que não se define nem ao sal nem ao doce.


É curioso que a manga nasça instigante e logo se transforme num bebê de doçura. 

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