quinta-feira, 3 de maio de 2018

Como vinagre para vinagrete



Minha infância foi um tempo descomplicado. Acredito que foi assim para a maioria das crianças daquele tempo, ainda que bastante pobres. Vivi um bom tempo sem afetações, colhendo flores com uma serie só de pétalas e me curando com ervas de ação medicamentosa. Creio que a expulsão do paraíso infantil se dava por duas portas: a do sexo e a da busca pela independência financeira. O preâmbulo não está a aquilatar novos e velhos tempos, absolutamente, mas lamento o estresse a que estão submetidas as crianças modernas. Entrarão para a vida adulta vincadas pelas preocupações. Não imagino saúde mental sem o idílio da inocência. Comida, por exemplo, era a que a mãe fazia: algo simples e inquestionável. As guloseimas eram raras - e que bom que tenha sido assim! E não me recordo de ouvir falar de criança obrigada a qualquer regime alimentar. Ninguém pensou que o excesso de possibilidades alimentares nos levaria onde estamos. 

Arrombamos a casa da bruxa, só que não havia bruxa, só os açúcares e gorduras, que aos poucos consomem nossa saúde.

O reverso é que hoje todos nós pensamos sobre comida. O alimento abandonou o trato digestivo para se instalar no cérebro. As possibilidades de dietas são tantas vezes maiores que os problemas ou as vantagens que prometem tirar ou dar ao corpo, que nos esgotam antes da entrada. E o prego na tampa do caixão é a responsabilidade social dentro do nosso prato de comida – às vezes me sinto bastante angustiada. Não existe resposta simples, mas existe comida simples. E ela deve ser o ponto de partida para todos nós.

Ordinariamente, nossas dietas não pedem substituições, mas o menos, pura e simplesmente: menos, açúcar, menos gordura, menos carne. 

Basicamente, a comida simples é aquela que está reduzida à sua essência, que não se compõe de partes acessórias ou substâncias diferentes, que sofre pequenas intervenções do cozinheiro e é nossa íntima conhecida: o arroz, o feijão em caldo, a cenoura assada, a beterraba ralada, o quiabo cozido, o brócolis branqueado, a vagem no vapor, o cogumelo salteado, a berinjela grelhada, por exemplo.

Cada região tem seu simples, ele tem procedência, o que está perto da gente é singelo e bom. Perseguir uma dieta assim no dia a dia é garantia de saúde, economia e paz, além de ornamentar o prazer dos inevitáveis e desejáveis deslizes.   

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