Há água por todos os lados e a cor é
verde jade quando rasa, safira quando funda e adiante enxergo preto. Piso em
tábuas, pedras, areia, sinto-me longe - essas não são as texturas da minha
casa. Há o perfume suave de uma planta que não conheço, as palmeiras se rasgam
pelo embalo da ventania e, nos seus caules, sem proteção, sofrem as orquídeas
que não são daqui, foram colocadas, certamente gostariam de voltar comigo.
Meditação marcada para às sete da manhã - se as condições meteorológicas
permitirem, e Yoga para às cinco da tarde: ambas de frente para o mar - encarando
o berço da vida, deve ser mais fácil encontrar o equilíbrio.
Em que lugar estou?
Vamos visitar a plantação de cocos e
cada coco tem sua própria personalidade e um nome fofo dado por crianças fofas.
À tarde tem feira do peixe: um carrinho de mão puxado por uma moça enluvada
apresenta-nos os peixes frescos do dia. São três as possibilidades. A
brincadeira é escolher o peixe e o modo de preparo e, no jantar, ter o
resultado.
Poderia ser só um excelente peixe
fresco no jantar? Sim, poderia. Mas queremos mais. O peixe vermelho, na carroça
branca, os olhos ainda líquidos e vítreos carregados da intimidade que há pouco
houvera entre ele e o pescador. Eriçar as guelras úmidas de água e sal e
macular o batismo eterno dos seres que conhecem um só sacramento. Queremos comprar
a experiência do outro, ignorando o simples: experimentar é um viver
intransferível.
Em que lugar estou?
A noite somos levados à mesa
reservada, há velas em cima e embaixo da mesa, para que os olhos brilhem e os
pernilongos não nos suguem. Nosso peixe está fantástico, levemente grelhado,
limão siciliano e thaiti, tomates e alcaparras, minis e grandes. Ambas
diferentes das nossas alcaparras comuns. A mini eu já conhecia, a grande não,
tem quem as chame de alcaparrão. São a mesma coisa, embora o gosto estivesse
mais azedo e menos salgado, mas pode ser só uma questão de conserva. Elas vêm
com os cabinhos e se pareceriam com um jiló, não fossem compridas. Em grande
quantidade eram o tempero principal do peixe, mas não lhes tiraram a
delicadeza.
Estava tão bom que não reclamava
nada, embora houvesse purê de batatas para acompanhar. Estava tão bom que
deveria ser o suficiente para aplacar a fome e serenar o espírito. Estava tão
bom que me fez saber onde e porque estava.
Noite alta, atravessamos o corredor
de pedras ladeados por Scavólias (assim me disseram) muito verdes.
É possível que
lá no mar, todo negro, alguma traineira fedida de diesel estivesse a sair a
procura de mais Vermelhos.

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