Quando a arte põe comida à mesa
Às vezes, tudo dá certo, tudo
funciona perfeitamente e somos enlevados. Só a arte é capaz de nos tirar da
mesmice da continuação dos atos repetitivos a que chamamos de quotidiano, de rotina.
E mesmo quando a arte trata da rotina de alguém, mesmo quando o que vemos na
tela é uma sucessão de acontecimentos, a rotina de uma adolescente pode nos
enlevar.
Azul é a cor mais quente, o filme ganhador da Palma de Ouro 2013, é para ser apreciado,
degustado, para usar adjetivo mais propício a nós. Há tempos não via um diretor
que lançasse mão de todas as artes para fazer da sua arte uma ainda melhor.
Nada sobra nas três horas de filme, somos carregados pela mão, parecem 15
minutos de filme e ele faz da gente o que bem quer. E, depois, carregamos com a
gente a beleza de sua filmagem sem tratamento, dizem, apenas luz.
Então se o caso da protagonista é de
um amor à primeira vista, ele lança mão de um best seller francês de 1678: A Princesa de Clèves – uma referência
literária incomparável na arte do amor e galanteria. Engraçado que o presidente
Sarkozy, em 2009, considerou esse livro irrelevante na educação francesa, o que
causou certo reboliço. Então o diretor é ainda mais esperto.
As metáforas do filme passeiam
definitivamente pela comida. O diretor, a meu ver, tem dois pontos de partida
com a comida. Um é a distinção de classe social entre as personagens principais;
a outro é a comida como maturidade, a comida como rito de passagem, e essa é,
naturalmente, a melhor parte.
Adèle, a mais nova, a inocente, a
mais pobre, janta macarrão à bolonhesa, e ela parte o macarrão e lambe a faca e
assiste TV enquanto come e fala de boca tão aberta que podemos espiar a comida
boca a dentro.
E aí tem a comida partilhada no amor,
digamos “correto” e adolescente: um Gyro, que é um lanche grego
tradicionalíssimo, que provavelmente originou nosso churrasquinho grego. O Gyro
tem recheio de carne assada num grande espeto vertical que fica girando e é
finamente cortada. O lanche tem pão, claro, e é o pão Pita, que se parece com o
pão Sírio, mas tem sabor e textura diferentes. Faz-se um cone com esse pão,
recheando-o com carne, cebola e tomates.
Mas o tempo passa e o diretor nos
prepara para o que virá, cita que o vício natural da água é a gravidade e que
não se foge aos vícios naturais. Depois expõe à personagem, que prefere comer
tudo o que é tipo de peles, a sofisticação e intimidade dos mariscos, dos frutos
do mar.
As ostras são o ponto central, óbvia
escolha, a aparência insidiosa, a textura sugestiva, que é a razão da repulsa
pela personagem e, por fim, mais tarde, saber que o melhor que se faz com elas
é comê-las ainda vivas, agonizantes no ácido do limão. Adèle as aceita, gosta e
repete.
O diretor não está de acordo que se
viva com amor, ele prefere que se morra de paixão, aliás, como os franceses
adoram, ele também não pretende que se coma com civilidade, ela nos incita à
lambança.
É filme pra se ver com o mínimo de
preconceito e de barriga vazia - para aproveitar a fome que pode bater depois.
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