Alimentos
Eu até que estou indo bem. Trabalho,
estudo, como e tenho dormindo muito bem. Me divirto sem grandes preocupações e
sobressaltos, evito pensar em números de assaltos, de estupros, atropelamentos,
latrocínios, afinal, são tão assustadores que insinuam que, ou se está morto ou,
caso ainda de pé, impossível não ostentar as marcas de uma grande
violência. Era isso ou viver
permanentemente no estado psicológico de quem acaba de receber um telefonema na
madrugada. Imagino que essa tensão seja como ver se desenrolar no horizonte uma
grande tempestade, nuvens imensas desdobrando-se sobre si, um imenso e fofo
tapete aquoso que não se sustém e desaba. Visto de longe, faz nascer no peito
da gente uma vontade de abrigar quem se ama. É isso: um filho morando sozinho
em SP é como sabê-lo em meio a esta tempestade sem que a gente possa trazê-lo
ao abrigo.
Mas se a gente usa a razão, nos
lembramos de todas as chuvas que tomamos, do quanto elas foram refrescantes,
libertadoras, podemos nos lembrar das enxurradas chapinhadas pelos nossos pés e
imaginar que, para quem estava na ponta contrário do horizonte, o espetáculo
pode ter parecido amedrontador. Preferi
olhar São Paulo, que acolhe minha filha, sob a minha própria ótica quando eu estou
lá. “Só o Viver, nos protege da vida”, foi Mia Couto quem disse, mas o matuto
também disse que “quem tem medo de morrer que não nasça”.
Mas eis que as abobrinhas me levaram
às lágrimas, lá estavam cinco delas na pia à espera da minha perícia que as cortariam,
as assariam, depois as recheariam com tofu temperado com pimenta do reino ou da
Jamaica e ervas secas, porque as frescas não se prestam ao congelamento. Abobrinhas
recheadas, mais arroz integral me rendem dez refeições.
Depois, os tomates, as
berinjelas douradas em rodelas, mais molho de tomate, faço dez porções de
lasanha vegana. Os feijões pretos, preferidos dela, cozidos, temperados, depois
congelados em potinhos que me fazem pensar em gelatinas de feijão preto, são
perfeitos para uma refeição.
Depois de tudo pronto, empilhado,
fica bonito, lembra organização, obrigação cumprida de continuar alimentando
minha filha, mesmo que ela more longe, mesmo que meus conselhos não lhes sejam
mais tão úteis, mesmo que tenha ouvido dela própria que a partir de agora os
limites serão por ela impostos depois de testados...Ok, me levam às lágrimas,
mas não me derrubam. Eu sei, nós sabemos o quanto é gratificante chegar em casa
à noite depois de um dia extenuante e encontrar uma refeição pronta a nossa
espera, no forno ou na geladeira. Sobretudo quando se trata daquela comida que
gostamos tanto. Ok, aceito feliz um novo jeito de ser mãe e redefino o que eu
já sabia, o quanto doamos de amor quando cozinhamos para quem amamos.

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