sexta-feira, 21 de abril de 2017

Lembranças



Da última vez que eu vira uma cuia fumegante de mexilhões em cima de uma mesa, havia embaixo dela, da mesa, um homem. Por cima: a cuia, cujo vapor ainda desenhava no ar, denunciava que ali ninguém comera nada ainda e que, mal chegaram os pedidos, o homem colapsou. Instantes depois, o serviço de emergência francês prestava os primeiros socorros. Mas, à parte os mexilhões enormes dum laranja luzidio protegidos pela casca preta ônix e o homem estirado no chão, vitimado sabe-se lá pelo que, o que me chamou a atenção foi o barulho, se alguém recortasse aquele pequeno quadro “encenado” nada estaria fora do lugar. O mesmo som aconchegante, vozes, taças, talheres, sineta da cozinha e ao fundo alguma Ella, Edith ou Nina acarpetava com a voz chiada todo o ambiente. O francês tem horror a qualquer intromissão desnecessária na vida alheia, então, para que xeretar uma situação que deve ser controlada por quem de direito?

Semana passada eu e minha filha fomos a um bistrô em São Paulo e dou de cara com a tabuleta anunciando que o prato do dia era Moules e frites (jamais me esquecerei daquela cena) muitos clientes denunciavam que estavam ali justamente pelos mexilhões, que são servidos apenas uma vez na semana. E, ainda bem, ninguém acometido por nenhum drama.

É uma pena que a gente não valorize os mexilhões que são uma opção barata de frutos do mar, além da personalidade do sabor, superior ao da lula por exemplo, que é bem sem graça. Para os franceses a coisa é séria, e há pelo menos uma receita clássica com eles vinda de cada região francesa. Acho que talvez a facilitação do processo tenha acabado com toda a graça do paladar. Uma coisa são os nossos mexilhões desabitados, pelados, congelados, acomodados lado a lado nas bandejas de isopor. Outra coisa são eles dentro de suas casas fechadas, as cascas com as cracas do mar, pedaços de algas saindo para fora das conchas e um punhado de areia que demanda algum trabalho. Só que tudo isso fervido junto resulta em algo delicioso, enquanto nós nos acostumamos a afugentar uma espécie de massinha alaranjada.

Juntei-me ao coro e pedi o meu mexilhão, que é feito a moda marinière, só que mais sofisticado, leva cebolas, vinho branco e manteiga e, acho, creme de leite fresco. O resultado é uma sopa de sabor refinado e irresistível, os mexilhões com textura firme e fresca, não são nem lembrança daquelas coisas moles com sabor meio passado a que estamos acostumados, e as batatas fritas, a gente varia, come umas mergulhadas no molho e outras crocantes.

Acho que temos o poder de escolher as lembranças que o cérebro vai guardar, por isso também escrevo, pois replico meu sentimento e reforço minha memória, que guarda agora duas cuias fumegantes, duas mesas, um corpo que cai e o rosto da bela moça que elegantemente me fazia companhia enquanto eu saboreava um delicioso moules e frites.

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