Levantar-se cedo, caminhar, uma
xícara de café ou chá e comer bem pouco é a interessante convergência na vida
de vários gênios do mundo das artes. Não é o caso de se fiar nos hábitos - sobre
pedras o arado é inútil -, mas, se houver comichão, não custa imitar e, quem
sabe, liberar o algo engarrafado. Estou
me divertindo com Daily Rituals, um
livro que narra elegantemente a rotina de alguns vultos: escritores, diretores
de cinema, atores etc. Chama atenção a insuspeita rígida rotina que personalidades
extravagantes estabeleceram para si, não obstante mantivessem vivo o charme da
prodigalidade.
Quem diria que – “Durante sua vida adulta saia bem cedo, às 5:30 ou 6:00, a fim de
caminhar com a primeira luz da manhã. ”– se tratasse de Ernest Hemingway. A
rotina do escritor americano ou indica uma imunidade aos efeitos da ressaca ou
reduz em centenas de mililitros as doses etílicas que lhes atribuíram.
A escritora Simone de Beauvoir se
sentia satisfeita com uma xícara de chá na primeira hora da manhã. Lia na cama,
depois se aprontava para ocupar a pequena mesa de trabalho do seu apartamento
parisiense, onde permanecia até a uma da tarde, quando invariavelmente se
encontrava com Sartre para almoçarem frugalmente.
O cineasta Frederico Fellini se levantava
às 6 da manhã e se dispunha a caminhar. Durante anos se dedicou a conseguir
fazer o próprio café, sem jamais atingir o padrão de excelência por ele
estabelecido. Às 7 em ponto começava a trabalhar.
Outro cineasta, Ingmar Bergman,
estabeleceu uma rotina austera que fez da sua alimentação apenas meio de
sobrevivência. Todos os dias se levantava às 8 e comia uma pequena porção de
geleia de morango com um cereal e leite desnatado. Depois de trabalhar o dia
todo, por volta das 4 da tarde, começava a caminhar e só retornava à noite.
Nada de drogas ou álcool. Bergman dizia que uma pequena taça de vinho era capaz
de fazê-lo incrivelmente feliz.
Com o alvorecer, o músico Beethoven
se levantava. Antes de começar a trabalhar, “desperdiçava” um pequeno tempo na
meticulosa tarefa de preparar um café perfeito, que lhe seria suficiente para
ir adiante com suas composições até às 2 ou 3 da tarde, quando então parava
para almoçar. Depois empreendia uma longa e vigorosa caminhada. No bolso, uma
composição inacabada e lápis - ele sabia que o exercício ao ar livre o encheria
de vigor e inspiração.
Às 7 horas da manhã, Sigmund Freud
estava tomando seu café. À 1 da tarde, pontualmente, seu almoço era servido. Dizia-se
um “não gourmet”, não apreciava comida ou vinhos, preferia algo que lhe desse o
sustento necessário para desempenhar a atividade para qual viveu: trabalhar. No
entanto, tirava da comida uma quieta concentração. Após o jantar, Freud
caminhava por Viena, às vezes só, às vezes acompanhado pela mulher e filhos,
que a custo o acompanhavam - na família era o homem da marcha terrível.
Freud nasceu em 1856, Simone em 1908,
Beethoven em 1770. Visitantes de mundos diversos que partilharam opiniões
parecidas sobre trabalho e inspiração. Chegaram incontestáveis até nós. Sabe-se
que barriga cheia e ociosidade só servem mesmo para nos deixar parados.

Nenhum comentário:
Postar um comentário