quinta-feira, 5 de julho de 2018

O peixe e o viver


Há água por todos os lados e a cor é verde jade quando rasa, safira quando funda e adiante enxergo preto. Piso em tábuas, pedras, areia, sinto-me longe - essas não são as texturas da minha casa. Há o perfume suave de uma planta que não conheço, as palmeiras se rasgam pelo embalo da ventania e, nos seus caules, sem proteção, sofrem as orquídeas que não são daqui, foram colocadas, certamente gostariam de voltar comigo. Meditação marcada para às sete da manhã - se as condições meteorológicas permitirem, e Yoga para às cinco da tarde: ambas de frente para o mar - encarando o berço da vida, deve ser mais fácil encontrar o equilíbrio.

Em que lugar estou?

Vamos visitar a plantação de cocos e cada coco tem sua própria personalidade e um nome fofo dado por crianças fofas. À tarde tem feira do peixe: um carrinho de mão puxado por uma moça enluvada apresenta-nos os peixes frescos do dia. São três as possibilidades. A brincadeira é escolher o peixe e o modo de preparo e, no jantar, ter o resultado.

Poderia ser só um excelente peixe fresco no jantar? Sim, poderia. Mas queremos mais. O peixe vermelho, na carroça branca, os olhos ainda líquidos e vítreos carregados da intimidade que há pouco houvera entre ele e o pescador. Eriçar as guelras úmidas de água e sal e macular o batismo eterno dos seres que conhecem um só sacramento. Queremos comprar a experiência do outro, ignorando o simples: experimentar é um viver intransferível.

Em que lugar estou?

A noite somos levados à mesa reservada, há velas em cima e embaixo da mesa, para que os olhos brilhem e os pernilongos não nos suguem. Nosso peixe está fantástico, levemente grelhado, limão siciliano e thaiti, tomates e alcaparras, minis e grandes. Ambas diferentes das nossas alcaparras comuns. A mini eu já conhecia, a grande não, tem quem as chame de alcaparrão. São a mesma coisa, embora o gosto estivesse mais azedo e menos salgado, mas pode ser só uma questão de conserva. Elas vêm com os cabinhos e se pareceriam com um jiló, não fossem compridas. Em grande quantidade eram o tempero principal do peixe, mas não lhes tiraram a delicadeza.

Estava tão bom que não reclamava nada, embora houvesse purê de batatas para acompanhar. Estava tão bom que deveria ser o suficiente para aplacar a fome e serenar o espírito. Estava tão bom que me fez saber onde e porque estava.
Noite alta, atravessamos o corredor de pedras ladeados por Scavólias (assim me disseram) muito verdes.

É possível que lá no mar, todo negro, alguma traineira fedida de diesel estivesse a sair a procura de mais Vermelhos.


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