Massas a base de gordura pouco se
assemelham aos pães e bolos, porque submetem o grão de trigo a uma expressão
diferente, aquela fragmentária, descontínua e particulada - estamos, afinal,
querendo uma torta. Tomando-se a Idade Média de partida, podemos considerar a
massa das tortas como algo utilitário, um recipiente, ainda que comestível,
capaz de conservar a carne – a consideração estava toda voltada ao recheio. As
famosas tortas de carne nos levam a visualizar a panela e a tampa. São massas
não destinadas ao consumo independente, mas que servem às quiches, patês,
carnes e legumes e, quando doces, frutas, cremes de leite com ovos.
Podemos tentar classificar as massas
das tortas em: amanteigadas, flocadas, folhadas e laminadas. Conforme o modo
como elas se desfazem na boca. E o mais interessante é que a variação se dá
conforme o modo de adição da gordura, que representa cerca de um terço ou mais
do seu peso. Está aí algo fascinante na gastronomia: a ordem dos fatores altera
o produto.
Os ingredientes que fazem as tortas,
em geral, são: manteiga, ovo, farinha e algum líquido, bem pouco, apenas
suficiente para que se tenha uma massa de fato. Portanto, os mesmos
ingredientes de um bolo, exceto por um detalhe: o ar.
Não raro, a gente coloca pesinhos
dentro da forma das massas de tortas, para que ela não infle. Outras vezes, com
um garfo, furamos a possibilidade de formação de algum bolsão de ar. É claro, é
uma perspectiva, mas uma diferença segura entre torta e bolo é o ar.
Podemos
também entender que o bolo é, por si só, a preparação. Uma xícara de café e um
pedaço de bolo fofo caseiro, me ajudam na conclusão. Já a massa da torta é
apenas parte de algo que estamos elaborando.
O ponto crítico parece ser as “tortas
doces de padaria”. Tomemos, como exemplo, uma Floresta Negra. Muitos a chamam
de torta e não bolo, embora haja, na composição, um pão de ló. Imagino que a
confusão se dê em vista da quantidade grande de recheio e cobertura, que podem
superar a quantidade de massa. Daí a gente ouvir assim: torta é molhadinha,
bolo é mais sequinho. Há um fundamento nisso, porque há tanto recheio que a
gente custa achar a massa. Mas pela composição e formato, acredito ser a
Floresta Negra, e outras semelhantes, um bolo, ainda que bastante enriquecido,
como aliás, são os de aniversário. Entendo que, se esses mesmos recheios e
coberturas, estivessem montados sobre discos rígidos compactos, teríamos uma
torta.
O ar? Pode-se dizer que é nada,
células vazias de matéria, a antimatéria. Mas o ar não é sinônimo de nada,
aprisionado ele vira alimento. Seria impossível sobrevivermos comendo apenas
farinha de trigo, mas sobreviveríamos comendo apenas pão.
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