sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Fervura branda




Ele chegou todo sujo, uma sujidade de roça, em altos saltos de lama; a calça jeans mais marrom que índigo; a camisa, sem cor; o cabelo ralo, branco e duro de pó. Trazia um cheiro bom de gente e campo que invadiu a cozinha que até aquele momento era só comida, fuligem e o café, que eu, em silêncio, tomava na varanda. Não era preciso especular, de olhos fechados eu saberia que estava na roça. Ele aportou no umbral baixo e forte da porta, trocou as botinas sujas, ao invés de raspar os pés na ponta da enxada fincada no terreiro, e entrou. Perguntou-me com a naturalidade de parente se o café ainda prestava, acenei que sim e lhe passei o copo.

Trazia dentro de um saco plástico o nosso jantar: pepino caipira, tomate e couve. Dali a pouco a dona da casa chegou, o silêncio foi embora, a fumaça da chaminé do fogão à lenha se avolumou, enormes canudos cinzas bailavam no ar, denunciando que havia um jantar a caminho. Nos aconchegamos no pequeno cômodo, quase não cabia tanto assunto – nossas apresentações se prolongaram noite a dentro. A mulher cheia de bijuteria barata nos dedos e nas orelhas, mãos ao alto picou a couve, retirou as pontas do pepino, descascou, jogou fora as sementes e picou ainda o tomate em rodelas grossas, do jeito que eu não gosto. Arroz, feijão, polenta e uma panela com água na chapa do fogão.

Jantamos o quanto quisemos, a mulher se levantou, pegou uma panela, colocou leite e açúcar, tomou o lugar da panela com água, sentou-se de costas para o fogão como quem não tem um leite para vigiar. Percebendo a minha aflição, riu-se e me falou: você não sabe que leite no fogão à lenha não derrama? Então, eu sabia e esqueci.

Tarde da noite, ocupo meu lugar num beliche, afasto o sono para me lembrar daqueles que foram meus melhores dias da infância. Meu pai arrumara um serviço numa roça e passei com ele minhas férias escolares. Foi lá que descobri que leite ferve manso e não derrama no fogão à lenha. Eu tinha apenas oito anos, fiz uma boa amizade com o filho mais velho do caseiro que tinha onze anos. Juntos explorávamos toda a propriedade, deitávamos no cocho d’água, vacinávamos o gado, levávamos o leite, que viraria doce na minha e na casa dele.

Um dia, ele me chamou no pasto para me mostrar um cavalo que fazia cobertura numa égua. Cheio de segurança, perguntou-me se eu sabia o que era aquilo. Senti que o chão se tornar movediço e rezei para conseguir uma saída que não me fizesse perder o amigo. Olhei direto para ele e foi minha vez de perguntar: Você é meu amigo de verdade? Ele se desculpou e eu jamais esqueci a nobreza do caráter dele.

Não me admira que eu tenha me esquecido que leite ferve, mas não derrama no fogão à lenha.

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