O último preparo do ano: um molho
pesto. Não havia nozes, mas tinha amêndoas - e por que não um teste bobo assim
para terminar o ano em segurança? O último cheiro-verde do ano a ser picado: a
salsa, a cebolinha, tão delicadas se recusam ao corte cego, é preciso fazer o
último fio na faca preta. A pedra cinza molhada se presta a última admoestação
do ano, e limpo o pó que os deslizes entre o ferro e a pedra produzem. Dou a
última laçada no avental, faço-a frouxa com a tranquilidade de quem se sagrou
campeão na rodada anterior, sinto-me como a cumprir tabela. Meu último jantar
do ano na mesa do meu trabalho, antes de servir me sirvo de cabotiá, feijão,
alface e muita cebolinha fresca.
Tudo ocorre como previsto, uma noite
tranquila. Vou mais cedo para casa com as últimas sujeiras do último dia de
trabalho do ano. São toalhas com respingos dos últimos vinhos servidos, guardanapos
com as marcas dos vários batons que pintaram as últimas bocas que se alimentaram
esse ano no Azul. Durmo cedo.
Acordo cedo, às 7 horas da manhã já
estou na estrada, às 17h. chego ao meu destino e às 19h. cobro por uma mesa por
uma reserva que eu fiz. Acomodo-me e um cardápio de delícias me é posto à
frente, é só pedir. Um vinho frisante me é oferecido dentro de uma taça bem
polida, percebo a toalha, o guardanapo. Vigio as gotas que escorrem da garrafa
e da taça. Identifico as primeiras manchas na toalha: água, a gordura de uns
grãos escapados. Um descuido e meu guardanapo tem uma pequena mancha de discreto
batom.
O restaurante está cheio, vejo
famílias e casais cultuarem, numa débil privacidade, seus pequenos palcos onde
se apresentam as ágapes escolhidas particularmente para serem devoradas. Sinto
a letargia da satisfação, contemplo num ritmo baixo o charmoso desalinho do
restaurante, todas as mesas sofreram avarias idênticas a minha. Daí a pouco o
público começa a debandar, a equipe tem outra feição, posso sentir o movimento
dos calcanhares em retirada, a substituição do delicado movimento de subida ao
palco para o frenesi do desarme.
Retiro o guardanapo do colo e o
deposito na mesa e com isso a encerro. Da porta vejo o garçom limpar a sujeira
do meu último jantar de restaurante do ano e daqui a pouco alguém fará por mim
o que há 24 horas eu fizera por alguém.
Escuto o mar bater nas pedras e me
lembro que estou longe de casa, no entanto, a idiossincrasia ao restaurante é
também meu lar.
Um bom ano a todos.

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